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sábado, 26 de abril de 2014

A Festa da Misericórdia e o Papa João Paulo II

Na multiforme bondade de Deus destaca-se a misericórdia. O Papa Francisco não se cansa de lembrar-nos de que Deus é um incansável misericordioso. As Sagradas Escrituras não deixam dúvidas. Jesus Cristo “rosto humano de Deus e rosto divino do homem” é a expressão maior da Divina Misericórdia. Escondem-se na expressão “misericórdia” três palavras latinas: “Miseris(miséria) - cor(coração) - dare(dar)”. Quando falamos sobre misericórdia normalmente estamos nos referindo à mais nobre das virtudes humanas e ao maior gesto de amor de Deus por nós. Deus nos amou com um coração humano, rico em misericórdia. 


O Papa João Paulo II, que será declarado Santo (27 de abril), enriqueceu a Igreja com palavras e significativos gestos de misericórdia. O exemplo mais conhecido é o perdão que ele deu ao terrorista Mehmet Ali Agca. No dia 13 de maio de 1981, na Praça São Pedro, no Vaticano, enquanto o Papa abençoava a multidão que o aclamava, Ali Agca, disparou quatro tiros contra o Sumo Pontífice. 


O plano de assassinato falhou. Ali Agca foi preso. O Papa, mesmo com uma bala abrigada em seu corpo, perdoou o agressor. Dois anos depois, em 1983, mesmo diante da reprovação de vários assessores, o Sumo Pontífice decidiu visitar Ali Agca na prisão. Lá, pessoalmente, transmitiu-lhe o perdão e o convocou para tornar-se defensor e benfeitor da vida humana. A atitude do Sumo pontífice concretizou aquilo que ele escrevera na Encíclica “Dives Misericórdia” (Divina Misericórdia) publicada em novembro de 1980. 


Compartilho aqui um pequeno trecho desta Encíclica preciosa reflexão sobre a Misericórdia de Deus e a nossa misericórdia 

“Jesus Cristo ensinou que o homem não só recebe e experimenta a misericórdia de Deus, mas é também chamado a “ter misericórdia” para com os demais. “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”(cf Mt 5,7). 

A Igreja vê nestas palavras um apelo à ação e esforça-se por praticar a misericórdia. Se todas as bem-aventuranças do Sermão da Montanha indicam o caminho da conversão e da mudança de vida, a que se refere aos misericordiosos é particularmente eloquente a tal respeito. O homem alcança o amor misericordioso de Deus e a sua misericórdia, na medida em que ele próprio se transforma interiormente, segundo o espírito de amor para com o próximo. 


Este processo autenticamente evangélico não consiste numa transformação espiritual realizada de uma vez para sempre, mas é um completo estilo de vida, uma característica essencial e contínua da vocação cristã. Consiste, pois, na descoberta constante e na prática perseverante do amor, como força que ao mesmo tempo unifica e eleva, não obstante todas as dificuldades de natureza psicológica ou social. Trata-se, efetivamente, de um amor misericordioso que, por sua essência, é amor criador. 


O amor misericordioso, nas relações recíprocas entre as pessoas, nunca é um ato ou um processo unilateral. Ainda nos casos em que tudo pareceria indicar que apenas uma parte oferece e dá, e a outra não faz mais do que aceitar e receber (por exemplo, no caso do médico que cura, do mestre que ensina, dos pais que sustentam e educam os filhos, do benfeitor que socorre os necessitados), de fato, também aquele que dá é sempre beneficiado. Neste sentido, Cristo crucificado é para nós o modelo, a inspiração e o incitamento mais nobre. Baseando-nos neste impressionante modelo, podemos, com toda a humildade, manifestar a misericórdia para com os outros, sabendo que Cristo a aceita como se tivesse sido praticada para com Ele próprio (cf. Mt, 25,40). 


Segundo este modelo, devemos também purificar continuamente todas as ações e todas intenções, em que a misericórdia é entendida e praticada de modo unilateral, como um bem feito apenas aos outros. Ela é realmente um ato de amor misericordioso só quando, ao praticá-la, estivermos profundamente convencidos de que ao mesmo tempo nós a estamos a receber, da parte daqueles que a recebem de nós. Se faltar esta bilateralidade e reciprocidade, as nossas ações não são ainda autênticos atos de misericórdia. 


A misericórdia autenticamente cristã é ainda, em certo sentido, a mais perfeita encarnação da "igualdade" entre os homens e, por conseguinte, também a encarnação mais perfeita da justiça, na medida em que esta, no seu campo, tem em vista o mesmo resultado. Enquanto a igualdade introduzida mediante a justiça se limita ao campo dos bens objetivos e extrínsecos, o amor e a misericórdia fazem com que os homens se encontrem uns com os outros naquele valor que é o mesmo homem, com a dignidade que lhe é própria.

Dom Gílio Felício | Bagé/RS
Fonte: http://www.jornalfolhadosul.com.br


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