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sábado, 23 de agosto de 2014

22 de Agosto - Festa do Imaculado Coração de Maria


Do Martirológio Romano: Festa do Imaculado Coração da Beata Virgem Maria: guardando no próprio coração a memória dos mistérios de salvação cumpridos em seu Filho, espera com confiança o cumprimento em Cristo.

A devoção ao Imaculado Coração de Maria consiste na veneração do Coração de Maria, mãe de Jesus, e ganhou grande destaque com as Aparições de Fátima, mas a origem deste culto pode ser encontrada nas palavras do Evangelista Lucas, onde o Coração de Maria aparece como umaarca de tesouros (Lc. 2,19) que guarda as mais santas lembranças. Depois, segue aumentando na Era Patrística, tendo-se desenvolvido, na Idade Média e nos tempos modernos, por obra de grandes Santos como São Bernardo, Santa Gertrudes, Santa Brígida, São Bernardino de Sena e São João Eudes (1601-1680), que foi um grande promotor da festa litúrgica do Imaculado Coração de Maria e que, já em 1643, começou a celebrá-la com os religiosos de sua congregação. Em 1648, consegue do Bispo de Autun (França) a concessão da festa. Em 1668, a festa e os textos litúrgicos são aprovados pelo Cardeal delegado de toda a França, enquanto Roma se negava, por diversas vezes, a confirmar a festa. Foi somente após a introdução da festa do Sagrado Coração de Jesus, em 1765, que será concedida, aqui e ali, a faculdade de celebrar a festa do Coração de Maria, tanto que o Missal Romano de 1814 a elenca ainda entre as festas “pro aliquibus locis”. São João Eudes, em seus escritos, nunca separou os dois Corações de Jesus e de Maria, e enfatiza a união profunda da Mãe com o Filho de Deus encarnado, cuja vida pulsou por nove meses ritmicamente com aquela do Coração de Maria.

A festa foi instituída oficialmente em 1805, pelo Papa Pio VII. Cinquenta anos mais tarde, Pio IXaprovou a Missa e o Ofício próprios. Papa Pio XII [1] estendeu, em 1944, a toda a Igreja, em perene memória da Consagração do mundo ao Imaculado Coração de Maria, realizada por ele em 1942, durante a Segunda Guerra Mundial.

Em 1948, o Papa Pio XII convida a todos os Católicos a se consagrarem ao Imaculado Coração de Maria através da Encíclica Auspicia Quaedam, onde diz: 

“(...) E como o nosso predecessor de imortal memória Leão XIII, nos albores do século XX, quis consagrar todo o gênero humano ao Sacratíssimo Coração de Jesus, também nós, como que representando a família humana por ele redimida, quisemos solenemente consagrá-la ao coração imaculado de Maria virgem. Desejamos que todos façam o mesmo, sempre que a oportunidade o aconselhar; e não só em cada diocese e cada paróquia, mas também em cada família. Assim esperamos que desta consagração particular e pública nasçam abundantes benefícios e favores celestiais. Seja presságio desses favores celestes e penhor de nossa benevolência paterna a bênção apostólica que damos com efusão de coração a cada um de vós, veneráveis irmãos, a todos aqueles que de boa mente corresponderem a esta nossa carta de exortação, e de um modo particular as caríssimas crianças” (1º de Maio de 1948).


Em 1952, o Papa Pio XII consagra a Rússia ao Imaculado Coração de Maria, através daCarta Apostólica Sacro Vergente Anno[2].

O culto do Imaculado Coração de Maria recebeu um forte impulso após as Aparições de Fátima, em 1917.

Os pastorinhos viram que Nossa Senhora tinha sobre a palma da mão direita um Coração cercado de espinhos que penetravam nele, fazendo-o sangrar horrivelmente. Era o Coração Imaculado de Maria, ultrajado pelos pecados da humanidade, a pedir reparação...

De acordo com o legado dos pastorinhos de Fátima, foi Nossa Senhora quem, em 1917, depois de mostrar a visão do Inferno a Lúcia, Jacinta e Francisco, lhes revelou o “Segredo”. Contava a Irmã Lúcia que: 

“(…) para salvar as almas (...) Deus quer estabelecer no mundo a Devoção ao Meu Imaculado Coração” (13 de Junho de 1917, in Memórias, da Irmã Lúcia).


Deus escolheu o Imaculado Coração de Maria, sem mancha e sem pecado, para que, assim como a salvação do mundo veio por Ela na pessoa de Jesus Cristo, também é por meio dEla que nós haveremos de ser salvos. Nossa Senhora afirma: “Se fizerem o que eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão a paz” (in Memórias, da Irmã Lúcia).

A Liturgia da festa ressalta a intensa atividade espiritual do Coração da primeira discípula de Cristo, e apresenta Maria propensa, no íntimo de seu coração, à escuta e ao aprofundamento da palavra de Deus. Maria medita em seu Coração os eventos em que é envolvida junto com Jesus, procurando penetrar o mistério que está vivendo: guardar e meditar em seu Coração todas as coisas, a faz descobrir a vontade do Senhor, como um pão que a nutre no íntimo, como uma água que brota em um terreno fecundo. Com este seu modo de agir, Maria nos ensina a nos alimentarmos em profundidade do Verbo de Deus, a viver saciando-nos e abeberar-nos dEle, e, sobretudo, a encontrar Deus na meditação, na oração e no silêncio. Maria, enfim, nos ensina a refletir sobre os acontecimentos de nossa vida cotidiana e a descobrir neles Deus que se revela, inserindo-se em nossa história.

O objeto primário da festa do Coração Imaculado de Maria é a Sua pessoa. O objeto secundário é o Coração simbólico, isto é, o coração físico da Virgem, por ser o símbolo de seu amor e de toda sua vida íntima, sendo a expressão de todos os seus sentimentos, afetos, e, sobretudo, de sua ardentíssima caridade para com Deus, para com seu Filho e para com todos os homens, que lhe foram confiados solenemente por Jesus agonizante.

A festa sugere o louvor e ação de graças ao Senhor por nos haver dado uma Mãe tão poderosa e misericordiosa, à qual nós podemos nos dirigir confiantemente, em qualquer necessidade. Inspira também que conduzamos uma vida segundo o Coração de Deus, e que peçamos à Virgem Santa a chama de uma ardente caridade.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Festa da Assunção de Nossa Senhora - 15 de Agosto 2014



Homilia de Dom Henrique Soares da Costa – 
Assunção de Nossa Senhora 
Ap 11,19a; 12,1.3-6a.10ab Sl 44 1Cor 15,20-27a Lc 1,39-56 

Esta é a maior das festas da Santíssima Virgem Maria; é a sua Assunção; a festa da sua entrada na glória, da sua plenitude como criatura, como mulher, como mãe, como discípula de Cristo Jesus. Como um rio, que após longa corrida deságua no mar, hoje, a Virgem Toda Santa deságua na glória de Deus: transfigurada no Espírito Santo, derramado pelo Cristo, ela está na glória do Pai! Para compreendermos o profundo sentido do que celebramos, tomemos as palavras de São Paulo:“Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que morreram. Com efeito, por um homem veio a morte e é também por um homem que vem a ressurreição dos mortos. Como em Adão todos morrem, em Cristo todos reviverão. Porém, cada qual segundo uma ordem determinada”. – Eis a nossa fé, o centro da nossa esperança: Cristo ressuscitou dos mortos como primícias dos que adormeceram. 

Ele é o primeiro a ressuscitar, ele é a causa e o modelo da nossa ressurreição. Os que nele nascem pelo batismo, os que nele crêem e nele vivem, ressuscitarão com ele e como ele: logo após a morte ressuscitarão naquela dimensão imaterial que temos, núcleo da nossa personalidade, a que chamamos “alma”; e, no final dos tempos, quando todo o universo for glorificado, ressuscitaremos também no nosso corpo. Assim, em todo o nosso ser, corpo e alma, estaremos, um dia, revestidos da glória de Cristo, nosso Salvador, estaremos plenamente conformados a ele! Ora, a Igreja crê, desde os tempos antigos, que a Virgem Maria já entrou plenamente nessa glória. Aquilo que todos nós só teremos em plenitude no final dos tempos, a Santíssima Mãe de Deus, já recebeu logo após a sua morte. Ela é a “Mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas”. Ela já está totalmente revestida da glória do Cristo, Sol de justiça – e esta glória é o próprio Espírito Santo que o Cristo Senhor nos dá. 

Ela já pisa a lua, símbolo das mudanças e inconstâncias deste mundo que passa. Ela já está coroada com doze estrelas, porque é a Filha de Sião, filha perfeita do antigo Israel e Mãe do novo Israel, que é a Igreja. Assim, a Virgem, logo após a sua morte – doce como uma dormição -, foi elevado ao céu, à glória do seu Filho em todo o seu ser, corpo e alma. Aquela que esteve perfeitamente unida ao Filho na cruz (cf. Lc 2,34s; Jo 19,25ss), agora está perfeitamente unida a ele na glória. São Paulo não dissera, falando do Cristo morto e ressuscitado? “Fiel é esta palavra: Se com ele morremos, com ele viveremos. Se com ele sofremos, com ele reinaremos” (2Tm 2,12). 


Eis! A Virgem que perfeitamente esteve unida ao seu Filho no caminho da cruz, perfeitamente foi unida a ele na glória da ressurreição. Aquela que sempre foi “plenamente agraciada” (Lc 1,28), de modo a não ter a mancha do pecado, não permaneceu na morte, salário do pecado. Assim, o que nós esperamos em plenitude para o fim dos tempos, a Virgem já experimenta agora e plenitude. Como é grande a salvação que o Cristo nos obteve! Como é grande a sua força salvífica ao realizar coisas tão grandes na sua Mãe! Mas, a Festa de hoje não é somente da Virgem Maria. Primeiramente, ela glorifica o Cristo, Autor da nossa salvação, pois em Maria aparece a vitória sobre a morte, que Jesus nos conquistou. A liturgia hoje exclama: 

“Preservastes, ó Deus, da corrupção da morte aquela que gerou de modo inefável vosso próprio Filho feito homem, Autor de toda a vida”. 


Este senhorio de Cristo aparece hoje radiante na sua Mãe toda santa: em Maria, Cristo venceu a morte de Maria! Em segundo lugar, a festa de hoje é também festa da Igreja, de quem Maria é Mãe e figura. A liturgia canta: “Hoje, a Virgem Maria, Mãe de Deus, foi elevada à glória do céu. Aurora e esplendor da Igreja triunfante, ela é consolo e esperança para o vosso povo ainda em caminho”. Sim! A Mãe Igreja contempla a Mãe Maria e fica cheia de esperança, pois um dia, estará totalmente glorificada como ela, a Mãe de Jesus, já se encontra agora. Finalmente, a festa é de cada um de nós, pois já vemos em Nossa Senhora aquilo que, pela graça de Cristo, o Pai preparou para todos nós: que sejamos totalmente glorificados na glória luminosa do Espírito do Filho morto e ressuscitado. Aquilo que a Virgem já possui plenamente, nós possuiremos também: logo após a morte, na nossa alma; no fim dos tempos, também no nosso corpo! Estejamos atentos! A festa hodierna recorda o nosso destino, a nossa dignidade e a dignidade do nosso corpo. 



O mundo atual, por um lado exalta o corpo nas academias, no culto da forma física, da moda e da beleza exterior; por outro lado, entrega o corpo à sensualidade, à imoralidade, à droga, ao álcool… É comum escutarmos que o que importa é o “espírito”, que a matéria, o corpo passa… Os cristãos não aceitam isso! Nosso corpo é templo do Espírito Santo, nosso corpo ressuscitará, nosso corpo é dimensão indispensável do nosso eu. Um documento recente da Igreja sobre a relação homem-mulher, chamava-se atenção exatamente para essa questão: o corpo em si, para o mundo, parece que não significa muita coisa, que não tem uma linguagem própria, que não diz algo do que eu sou, da minha identidade – inclusive sexual. Para nós, cristãos, o corpo integra profundamente a personalidade de cada um: meu corpo será meu por toda eternidade; meu corpo é parte de minha identidade por todo o sempre! Honremos, então nosso corpo: “O corpo não é para a fornicação e, sim, para o Senhor e o Senhor é para o corpo. 


Ora, Deus, que ressuscitou o Senhor, ressuscitará também a nós – em nosso corpo- pelo seu poder. Glorificai, portanto, a Deus em vosso corpo” (1Cor 6,14.20). Então, caríssimos, olhemos para o céu, voltemos para lá o nosso coração! Celebremos! Com a Virgem Maria, hoje vencedora da morte, com a Igreja, que espera, um dia, triunfar totalmente como Maria Virgem, cantemos as palavras da Filha de Sião, da Mãe da Igreja, pensando na nossa vitória: 

“A minha alma engrandece o Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, porque olhou para a humildade de sua serva. O Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor!” A ele a glória pelos séculos dos séculos. Amém.


Oração  a Nossa Senhora da Assunção.

Ó dulcíssima soberana, rainha dos Anjos,
bem sabemos que, miseráveis pecadores,
não éramos dignos de vos possuir neste vale de lágrimas,
mas sabemos que a vossa grandeza
não vos faz esquecer a nossa miséria e,
no meio de tanta glória, a vossa compaixão, longe de diminuir,
aumenta cada vez mais para conosco.
Do alto desse trono em que reinais
sobre todos os anjos e santos,
volvei para nós os vossos olhos misericordiosos;
vede a quantas tempestades e mil perigos
estaremos, sem cessar,
expostos até o fim de nossa vida.
Pelos merecimentos de vossa bendita morte,
obtende-nos o aumento da fé,
da confiança e da santa perseverança
na amizade de Deus, para que possamos, um dia,
ir beijar os vossos pés e unir as nossas vozes
às dos espíritos celestes,
para louvar e cantar as vossas glórias eternamente no céu.
Assim seja!

fonte:www.presbiteros.com.br

tag: assunção, festa da dormição, maria elevada aos céus, magnificat, Nossa Senhora da Glória

Couronnée d'étoiles - Nous te saluons

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Agosto - Mês das Vocações - Artigo "Os Papas e a pequena Teresa do Menino Jesus"


Os Papas e a pequena Teresa do Menino Jesus


Todos os pontífices do século XX fascinaram-se pela fé simples da santa de Lisieux. Baseada na absoluta necessidade da graça


de Giovanni Ricciardi
No dia 20 de novembro de 1887, Santa Teresa do Menino Jesus encontrou, aos 15 anos, o Papa Leão XIII (1878-1903) durante uma peregrinação organizada pela diocese de Lisieux, pedindo-lhe com ingênuo atrevimento a permissão para entrar no Carmelo antes da idade prescrita. O Papa respondeu-lhe categórico: “Vamos!...Vamos!... Se Deus quiser entrarás”. O velho Pontífice não podia imaginar que o caso desta mocinha teria marcado tanto o pontificado de seus sucessores. Com efeito, todos os papas do século XX foram tocados, de um modo ou outro, pela “passagem” de Teresa. O primeiro de todos foi Pio XI, que a beatificou em 1923 e canonizou-a dois anos depois, nomeando-a em seguida, em 1927, padroeira das missões. A história de Teresa cruza-se particularmente com a do Papa Paulo VI, que foi batizado no mesmo dia da morte da pequena irmã de Lisieux. Mas a primeira intuição da excepcionalidade de Teresa deve-se, sem dúvida, a Pio X (1903-1914), o papa que em 4 de agosto completará cem anos da sua eleição.

Pio X: 

“A maior santa dos tempos modernos”

Tinham passado apenas dez anos da morte de Teresa quando Pio X recebeu de presente a edição francesa do Histoire d’une âme e, três anos mais tarde, em 1910, a tradução italiana da autobiografia da santa. Tradução que estava, desde então, na segunda edição. Pio X não teve hesitações com relação a Teresa, e por isso acelerou a introdução da causa de beatificação, que tem a data de 1914 e que foi um dos últimos atos do seu pontificado. Mas, já alguns anos antes, encontrando um bispo missionário que lhe doara um retrato de Teresa, o papa observara: “Eis a maior santa dos tempos modernos”. Um juízo que poderia parecer arriscado, pois na época, e ainda hoje, Teresa não contava somente com admiradores. A simplicidade da sua doutrina espiritual, fundada simplesmente na absoluta necessidade da graça, causava desagrado em não poucos eclesiásticos. No clima de um catolicismo tomado pelo jansenismo, uma espiritualidade fundada apenas na confiança e no abandono dócil à misericórdia de Deus parecia estar em contraste com o rigor de uma ascese centralizada na renúncia e no sacrifício de si. O eco dessa “suspeita” contra a doutrina de Teresa chegou até os ouvidos do Papa. O qual uma vez respondeu com decisão a um desses detratores: “A sua extrema simplicidade é a coisa mais extraordinária e digna de atenção nesta alma. Reestudem a vossa teologia”. 

Entre outras coisas, Pio X ficara gravemente impressionado por uma carta que Teresa escrevera em 30 de maio de 1889 à sua prima Maria Guérin, a qual, por motivos de escrúpulos, abstinha-se da comunhão: “Jesus está no tabernáculo expressamente para ti, para ti só, arde com o desejo de entrar no teu coração [...]. Comunga muitas vezes, muitas vezes... É esse o único remédio se queres curar-te”. Na época havia um difuso comportamento de excessivo escrúpulo para aproximar-se da eucaristia, e a resposta de Teresa pareceu ao Papa um encorajamento para combatê-lo. E é possível que os dois decretos de Pio X, Sacra Tridentina Synodus, sobre a comunhão freqüente, e Quam singulari, sobre a comunhão às crianças tenham sido influenciados pela leitura dos escritos teresianos. 


Bento XV: “Contra a presunção de alcançar com meios humanos um fim sobrenatural”
Pio X não teve tempo de seguir o iter da causa de beatificação. O seu sucessor, Bento XV (1914-1922), acelerou-o ulteriormente. Em 14 de agosto de 1921, proclamou o decreto sobre as heroicidades das virtudes da pequena Teresa e, pela primeira vez, um papa usou a expressão “infância espiritual” para se referir à “doutrina” da santa de Lisieux: “A infância espiritual”, disse o Papa “é formada pela confiança em Deus e pelo cego abandono nas mãos dEle [...]. Não é difícil relevar as vantagens desta infância espiritual tanto por aquilo que exclui como por aquilo que supõe. Com feito, exclui o soberbo lisonjear-se; exclui a presunção de alcançar com meios humanos um fim sobrenatural; exclui a falácia da auto-suficiência na hora do perigo e da tentação. E, por outro lado, supõe fé viva na existência de Deus; supõe prática homenagem à Sua potência e misericórdia; supõe confiante recurso à providência dAquele com o qual obter a graça, evitar todo o mal e conseguir todo o bem. [...] Esperamos que o segredo da santidade de Irmã Teresa do Menino Jesus não seja segredo para ninguém”.


Pio XI: 

“A estrela do meu pontificado”

Pio XI (1922-1939), mais do que qualquer outro papa durante toda a sua vida, mesmo antes da sua eleição ao trono de Pedro, foi acompanhado por uma profunda devoção para com a pequena Teresa. Quando ainda era núncio apostólico em Varsóvia, tinha sobre sua escrivaninha a História de uma alma; e continuou a fazer o mesmo depois assumir a arquidiocese de Milão. Durante o seu pontificado Teresa foi elevada, em pouco tempo, às honras dos altares. Beatificada em 29 de abril de 1923; canonizada em 17 de maio de 1925, durante o Ano Santo; em 14 de dezembro de 1927 foi proclamada, junto com São Francisco Xavier, padroeira universal das missões católicas. Tanto a beatificação como a canonização foram as primeiras do pontificado deste Papa. E já em 11 de fevereiro de 1923, no discurso feito por ocasião da aprovação dos milagres necessários para a beatificação, observava: “Milagre de virtude nesta grande alma que nos faz repetir com o Divino Poeta: ‘algo vindo do céu à terra para o milagre mostrar’ [...]. A pequena Teresa fez-se Ela mesma uma palavra de Deus [...]. A pequena Teresa do Menino Jesus nos diz que há um modo fácil de participarmos de todas as maiores e heróicas obras do zelo apostólico, por meio da oração”. Aos peregrinos franceses vindos a Roma para a beatificação de Teresa, disse: “Eis que estais à luz desta Estrela – como nós gostamos de chamá-la – que a mão de Deus quis que resplandecesse no início do nosso pontificado, presságio e promessa de uma proteção, da qual estamos tendo a feliz experiência”. 

Também, mais tarde, Pio XI atribuiu à intercessão de Teresa uma proteção especial em momentos cruciais do seu pontificado. Em 1927, num dos momentos mais duros da perseguição contra a Igreja Católica no México, confiou aquele país à proteção de Teresa: “ýuando a prática religiosa for restabelecida”, escrevia aos bispos mexicanos, “desejo que Santa Teresa do Menino Jesus seja reconhecida como a mediadora da paz religiosa no vosso país”. Dirigiu-se a ela para implorar a solução do duro contraste entre a ýanta Sé e o governo fascista de 1931, que quase levou à suspensão da Ação Católica italiana: “Minha pequena santa faça que para a festa de Nossa Senhora tudo tenha se regularizado”. A controvérsia chegou à solução em 15 de agosto do mesmo ano. Já no fiŸal do Ano Santo de 1925, Pio XI enviara a Lisieux, acompanhando uma sua fotografia, uma expressão eloqüente: “Per intercessionem S. Theresiae ab Infante Iesu protectricis nostrae singularis benedicat vos omnipotens et misericors Deus”. E, em 1937, no final da longa doença que sofria nos últimos anos do seu pontificado, agradeceu publicamente àquela “que tão validamente e tão evidentemente veio em ajuda ao Sumo Pontífice e ainda parece disposta a ajudá-lo: Santa Teresa de Lisieux”. Não pôde coroar o desejo de ir pessoalmente a Lisieux nos últimos meses da sua vida. Pouco antes de estourar a Segunda Guerra Mundial, o pontificado passava para as mãos de Pio XII (1939-1958), que conhecia e estimava muito a pequena santa. 

Pio XII

 “Valorizar diante de Deus a pobreza espiritual de uma criatura pecadora”

Filha de um cristão admirável, Teresa aprendeu sentada nos joelhos de seu pai os tesouros de indulgência e de compaixão que se escondem no coração do Senhor! [...] Deus Pai cujos braços estão constantemente dirigidos aos filhos. Por que não responder a este gesto? Por que não gritar espontaneamente para ele a nossa angústia? É preciso confiar na palavra de Teresa, quando convida tanto o mais miserável como o mais perfeito a não valorizar diante de Deus senão a fraqueza radical e a pobreza de espírito de uma criatura pecadora”. Assim Pio XII exprimia-se na radiomensagem de 11 de julho de 1954, por ocasião da consagração da Basílica de Lisieux, o coração da “via da infância espiritual” indicada por Teresa. Durante toda a sua vida, ele manteve correspondência com o Carmelo de Lisieux. O início dessa correspondência foi em 1929, no tempo da nunciatura apostólica em Berlim, quando enviou a Lisieux uma carta de agradecimento por ter recebido a primeira edição alemã daHistória de uma alma. Depois foi várias vezes enviado pelo papa Pio XI para o Carmelo de Teresa para presidir algumas funções especiais. Quando foi a Buenos Aires, em 1934, como legado pontifício no Congresso Eucarístico Internacional, levou consigo uma relíquia de Teresa à qual tinha confiado a sua missão. Durante todo o pontificado correspondeu-se também com Irmã Inês e Irmã Celina, as irmãs de Teresa que ainda viviam no Carmelo de Lisieux.


João XXIII

“A pequena Teresa nos conduz ao porto”

Santa Teresa a Grande [Teresa de Ávila, ndr] eu amo muito... mas a Pequena: ela nos conduz ao porto [...]. É preciso pregar a sua doutrina tão necessária”. São palavras de João XXIII (1958-1963) ao se dirigir a um sacerdote que lhe oferecera uma coleção de retratos da pequena Teresa. Angelo Roncalli foi cinco vezes a Lisieux, principalmente no período da sua nunciatura em Paris, mas também quando ainda era delegado apostólico na Bulgária. Como pontífice dedicou particular atenção à santa na audiência geral de 16 de outubro de 1960. Na ocasião disse: “Teresa de Lisieux foi grande por ter sabido, na humildade, na simplicidade, na constante abnegação, cooperar nas dificuldades e no trabalho da graça para o bem de inúmeros fiéis”. Sobre isso o Santo Padre, querendo dar uma adequada semelhança, com muito prazer recorda de quando observava o porto de Constantinopla. “Lá chegavam grandes navios de carga, que porém não conseguiam, pela natureza do fundo do mar, a aproximarem-se do cais. Portanto, eis que, ao lado de cada grande navio, encostava um pequeno barco, cuja presença à primeira vista parecia supérflua, e, ao invés, era muito preciosa, pois o barco tinha a tarefa de transportar as mercadorias até o porto”.


Paulo VI: 

“Nasci para a Igreja no dia em que a santa nasceu para o céu”

Durante uma visita ad limina do bispo de Sées, a diocese na qual nasceu Teresa, Paulo VI (1963-1978) disse: “Nasci para a Igreja no dia em que a santa nasceu para o céu. Isso lhe mostra que especial vínculo me liga a ela. Minha mãe fez com que eu conhecesse Santa Teresa do Menino Jesus que ela tanto amava. Já li várias vezes a Histoire d’une âme, a primeira vez na minha juventude”. Já em 1938 escrevia às monjas do Carmelo de Lisieux, confessando “acompanhar há muitos anos com grande interesse os progressos do Carmelo de Lisieux” e acrescentava “sou um grande devoto de Santa Teresa, da qual conservo uma pequena relíquia na minha escrivaninha”.

Estas menções seriam suficientes para demonstrar o significado da profunda ligação entre Paulo VI e a pequena Teresa. O Papa interveio várias vezes para falar sobre a figura e sobre a doutrina da pequena santa de Lisieux. Em 1973, por ocasião do centenário do nascimento da santa, escreveu uma carta a D. Badré, então bispo de Bayeux e Lisieux, condensando em poucas páginas o seu pensamento sobre Teresa. O realismo e a humildade são os dois conceitos mais evidenciados por Paulo VI a propósito de Teresa: “Teresa do Menino Jesus e da Santa Face ensina a não contar com nós mesmos, tanto se tratando de virtude como de limite, mas com o amor misericordioso de Cristo, que é maior do que o nosso coração e nos associa à oferta da sua paixão e ao dinamismo da sua vida”. A propósito da vida de Teresa que aceitou o limite humano e cultural do claustro, ela ensina segundo Paulo VI, que “a inserção realista na comunidade cristã, onde se é chamado a viver o instante presente, parece-nos uma graça sumamente desejável para o nosso tempo”. Teresa viveu o seu caminho pessoal de santidade dentro de um ambiente cheio de limites. Todavia, “para começar a agir ela não esperou um modo de vida ideal, um ambiente de convivência mais perfeito; digamos que, ao invés, ela contribuiu para mudá-lo partir de dentro. A humildade é o espaço do amor. A sua busca do Absoluto e a transcendência da sua caridade permitiram-lhe vencer os obstáculos ou mesmo transfigurar os seus limites”.

Paulo VI já tinha sublinhado o tema da humildade em Teresa em uma audiência de 29 de dezembro de 1971: “Humildade tão mais obrigatória quanto mais a criatura é alguma coisa, porque tudo depende de Deus, e porque o confronto entre qualquer medida nossa e o Infinito obriga a curvar a fronte”. Em Teresa esta humildade não está separada de uma “infância cheia de confiança e de abandono”.

Em um discurso de 16 de fevereiro de 1964 na paróquia de São Pio X, o Papa evidenciava com clareza o quanto Santa Teresa do Menino Jesus tinha praticado e ensinado com relação à confiança que devemos ter na bondade de Deus, abandonando-nos plenamente à sua Providência misericordiosa: “Um escritor moderno muito conhecido conclui um livro seu afirmando: tudo é graça. Mas de quem é esta frase? Não do escritor citado, porque ele tirou-a – e diz isso – de outra fonte. É de Santa Teresa do Menino Jesus. Colocou-a em uma página dos seus diários: ‘Tout est grâce’. Tudo pode se resolver em graça. De resto a santa carmelita repetia sempre uma esplêndida palavra de São Paulo: ‘Diligentibus Deum omnia cooperantur in bonum’. Toda a nossa vida pode se resolver no bem, se amamos o Senhor. E é isso que o Pastor Supremo espera dos que o ouvem”. 


João Paulo I

“Com suma simplicidade e encaminhando-se 
ao essencial”

O Papa Luciani não teve tempo, nos seus 33 dias de pontificado, de falar de Teresa. Porém já tinha falado em duas importantes ocasiões quando era patriarca de Veneza. Em 10 de outubro de 1973, fez uma conferência por ocasião do centenário do nascimento de Teresa e uma carta à santa no livro Illustrissimi. Aqui o futuro papa conta que leu a História de uma almaüpela primeira vez aos 17 anos: “Para mim foi como um relâmpago”, escreveu. E revela sobre a ajuda recebida de Teresa quando era um jovem padre e, atingido pela tuberculose, fora internado em um sanatório. “Envergonhei-me por ter sentido um pouco de medo”, recorda Luciani: “Teresa, aos 23 anos, na época sã e cheia de vitalidade – disse-me –, foi inundada de alegria e de esperança, quando sentiu subir à boca a primeira golfada de sangue. Não só isso, mas, atenuando o mal, conseguiu levar a termo o jejum de pão seco e água, e tu queres sentir medo? És sacerdote, desperta, não sejas tolo”. Na conferência de 1973, o futuro João Paulo I sublinhava o ensinamento de Teresa: “Teresa, contando com uma aguda inteligência e dons especiais, viu claramente nas coisas de Deus e também expressou-se claramente, ou seja, com suma simplicidade e encaminhando-se ao essencial”. Teresa não buscou experiências diferentes das que o cristianismo do seu tempo oferecia-lhe. Como escreve padre Mario Caprioli, não buscou experiências extraordinárias: “Confissão aos seis anos, a preparação à primeira comunhão em família, as peregrinações – que para Teresa foram muito instrutivas –, o convento, ou seja, a vida religiosa com os votos, a regra, a austeridade” (M. Caprioli, I papa del XX secolo e Teresa di Lisieux, p. 349). “Hoje”, comentava a este propósito Luciani “sob pretexto de renovações tende-se, algumas vezes, a tirar todo o valor destas coisas. Na minha opinião, Teresa não concordaria”.


João Paulo II

Teresa do Menino Jesus doutora da Igreja universal

Ao proclamar, em 1997, Teresa de Lisieux doutora da Igreja universal, terceira mulher a obter este título depois de Teresa de Avila e Catarina de Sena, João Paulo II recolheu efetivamente a herança de seus predecessores.

A atualidade do gesto pode ser expressa nas palavras que o padre Luigi Giussani dirigia ao Papa na Praça de S. Pedro durante o encontro dos movimentos eclesiais em maio de 1998: “Ao grito desesperado do pastor Brand no homônimo drama de Ibsen (‘Responda-ýe ó Deus, na hora em que a morte me arrasta: então não é suficiente toda a vontade de um homem para conseguir uma só salvação?’) responde a humilde positividade de Santa Teresa do Menino Jesus, que escreve: ‘Quando sou caridosa é Jesus que age em mim”.

Fonte : 30 Dias
http://www.30giorni.it/

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

04 de Agosto - dia do Padre - Homilia na festa de S. João Maria Vianney (trehos).mpg

Homilia de S. Exa. Rev. Dom Fernando Arêas Rifan
23 de Agosto de 2012

O Flos Carmeli faz a sua homenagem a todos os Sacerdotes, 
neste dia que lhes é dedicado.
"Tu es sacerdos in aeternum, secundum Ordinem Melchisedec"


Transquevemos aqui a Catequese do Santo Padre Bento XVI 
06 de Agosto de 2009  - 

"Queridos irmãos e irmãs,

Na catequese de hoje, pretendo percorrer brevemente a vida do Santo Cura d'Ars, destacando alguns traços que possam servir de exemplo para os sacerdotes do nosso tempo, certamente uma época diferente daquela em que ele viveu, mas marcada, em muitos aspectos, pelos mesmos desafios fundamentais humanos e espirituais. Exatamente ontem se cumpriram os 150 anos de seu nascimento ao Céu: eram duas da manhã de 4 de agosto de 1859 quando São João Maria Vianney, terminado o curso de sua existência terrena, foi ao encontro do Pai celestial para receber como herança o reino preparado desde a criação do mundo para aqueles que seguiram fielmente seus ensinamentos (cf. Mt 25, 34). Que grande festa deve ter acontecido no Paraíso ao ingresso de tão zeloso pastor! Que acolhida deve ter sido reservada a ele pela multidão de fiéis reconciliados com o Pai, por meio de seu trabalho como pároco e confessor! Gostaria de partir deste ponto para pôr em destaque o Ano Sacerdotal, que, como se sabe, tem o tema “Fidelidade de Cristo, fidelidade do sacerdote”. 

Depende da santidade a credibilidade do testemunho e, em definitivo, a eficácia da missão de cada sacerdote. João Maria Vianney nasceu na pequena aldeia de Dardilly, a 8 de maio de 1786, de uma família camponesa, pobre em bens materiais, mas rica em humanidade e fé. Batizado, como era costume na época, no mesmo dia do nascimento, dedicou os anos da infância e da adolescência ao trabalho no campo e ao pastoreio de animais, de tal forma que, à idade de dezessete anos, ainda era analfabeto. Mas conservava na memória as orações ensinadas pela piedosa mãe e se nutria do sentido religioso que se respirava em casa. Os biógrafos contam que, desde o início da juventude, ele buscou moldar-se à vontade divina, mesmo nas tarefas mais humildes. Cultivava em mente o desejo de se tornar sacerdote, mas não foi fácil alcançar isso. Chegou à ordenação presbiteral depois de muitas vicissitudes e incompreensões, graças à ajuda de sábios sacerdotes, que não se detiveram a considerar somente seus limites humanos, mas souberam olhar mais longe, intuindo o horizonte de santidade que se perfilava naquele jovem verdadeiramente singular. Assim, a 23 de junho de 1815, foi ordenado diácono, e a 13 de agosto seguinte, sacerdote. Finalmente, à idade de 29 anos, depois de muitas incertezas, insucessos e lágrimas, pôde subir ao altar do Senhor e realizar o sonho da sua vida. O Santo Cura d'Ars sempre manifestou a mais alta consideração pelo dom recebido. Afirmava: 

"Ó, que grandioso é o sacerdócio! Só se compreende bem no Céu... mas se o compreendesse sobre a terra, morrer-se-ia, não de temor, mas de amor" (Abbé Monnin, Esprit du Curé d'Ars, p. 113). 

Além disso, quando criança, tinha confiado a sua mãe: "Se eu fosse padre, conquistaria muitas almas" (Abbé Monnin, Procès de l'Ordinaire, p. 1.064). E assim foi. No serviço pastoral, tão simples como extraordinariamente fecundo, este anônimo pároco de uma distante aldeia do sul da França conseguiu de tal modo identificar-se com o seu ministério que se tornou, de uma maneira visivelmente reconhecível, alter Christus, imagem do Bom Pastor, que, diferentemente dos mercenários, dá a vida por suas ovelhas (cf. Jo 10:11). 

A exemplo do Bom Pastor, ele deu a vida nos decênios de seu serviço pastoral. Sua existência foi uma catequese viva que adquiria uma eficácia particularíssima quando as pessoas o viam celebrar a missa, deter-se em adoração diante do sacrário ou passar muitas horas no confessionário. O centro de toda sua vida foi a Eucaristia, que celebrava e adorava com devoção e respeito. Outra característica fundamental desta extraordinária figura sacerdotal era o assíduo ministério da confissão. Reconhecia na prática do sacramento da Penitência o natural cumprimento do apostolado sacerdotal, em obediência ao mandato de Cristo: “Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados” (cf. Jo 20, 23). São João Maria Vianney distingue-se portanto como ótimo e incansável confessor e diretor espiritual. Passando, com “um único movimento interior, do altar ao confessionário”, onde transcorria grande parte do dia, buscava de todos os modos, com a pregação e com o aconselhamento, fazer os paroquianos redescobrirem o sentido e a beleza da penitência sacramental, mostrando-a como um sinal íntimo da presença da Eucaristia (cf. Carta aos sacerdotes para o Ano Sacerdotal). Os métodos pastorais de São João Maria Vianney poderiam parecer um pouco distantes das atuais condições sociais e culturais. 

Como poderia imitá-lo um sacerdote hoje, em um mundo tão mudado? Se é verdade que mudam os tempos e muitas características são típicas de cada pessoa, às vezes irrepetíveis, há no entanto um estilo de vida e um alento fundamental que todos somos chamados a cultivar. Na verdade, o que fez santo o Cura d’Ars foi a sua humilde fidelidade à missão a que Deus o chamou, foi seu constante abandono, cheio de confiança, nas mãos da Divina Providência. Ele conseguiu tocar o coração das pessoas não com a força de seus talentos humanos, ou através de um louvável esforço da vontade; conquistou as almas, mesmo as mais resistentes, comunicando-lhes aquilo que vivia internamente, que era a sua amizade com Cristo. Foi “apaixonado” por Cristo, e o verdadeiro segredo do seu sucesso pastoral estava no amor que nutria pelo mistério eucarístico anunciado, celebrado e vivido, que passou a ser amor pelo rebanho de Cristo, os cristãos e todas as pessoas que buscam a Deus. O seu testemunho nos recorda, queridos irmãos e irmãs, que para cada pessoa batizada, e ainda mais para o sacerdote, “a Eucaristia não é apenas um evento com dois protagonistas, um diálogo entre Deus e mim. A comunhão eucarística encaminha para uma transformação total da própria vida. 

Com toda força escancara o eu inteiro do homem e cria um novo nós" (Joseph Ratzinger, a Sagrada Comunhão na Igreja, p. 80). Longe de diminuir a figura de São João Maria Vianney a um exemplo, embora louvável, da espiritualidade devocional do século XIX, é necessário, por outro lado, compreender a força profética que marca sua personalidade humana e sacerdotal de uma altíssima atualidade. Na França pós-revolucionária, que experimentava uma espécie de "ditadura do racionalismo", empenhada em apagar a presença dos padres e da Igreja na sociedade, ele tinha vivido anteriormente –nos anos de juventude– uma heróica clandestinidade percorrendo quilômetros pela noite para participar da Santa Missa. Depois –como sacerdote– distingue-se por uma singular e fecunda criatividade pastoral, pronta a demonstrar que o racionalismo, então imperante, era na realidade distante de satisfazer as necessidades autênticas do homem. Queridos irmãos e irmãs, 150 anos após a morte do Santo Cura d'Ars, os desafios da sociedade moderna não são menos exigentes, talvez até se tornaram mais complexos. Se naquele tempo havia a “ditadura do racionalismo”, hoje se registra em muitos ambientes uma espécie de "ditadura do relativismo". Ambas lançam respostas inadequadas à justa procura do homem por usar de modo pleno a razão como elemento distintivo e constitutivo da própria identidade. 

O racionalismo foi inadequado porque não levou em conta os limites humanos e aspirou a elevar apenas à razão a mistura de todas as coisas, transformando-as em uma ideia; o relativismo contemporâneo mortifica a razão, porque de fato chega a afirmar que o ser humano não pode conhecer nada com certeza além do campo científico positivo. Hoje, como então, o homem, “mendicante de significado e completude”, sai em contínua busca das respostas exaustivas às questões de fundo que não cessam de se colocar. Tinham bem presente esta “sede de verdade”, que arde no coração humano, os Padres do Concílio Vaticano II, quando afirmaram que cabe aos sacerdotes, “como educadores da fé”, formar uma “genuína comunidade cristã”, capaz de abrir “a todos o caminho para Cristo” e de exercer “uma verdadeira maternidade” para eles, indicando aos que não crêem “o caminho para Cristo e para a Sua Igreja”, e constituindo para os que já crêem “ânimo, alimento e sustento no combate espiritual”. (cf. Presbyterorum ordinis, 6). O ensinamento que a este propósito continua a transmitir o Santo Cura d’Ars é que, na base de tal empenho pastoral, o sacerdote deve cultivar uma íntima união pessoal com Cristo, fazendo-a crescer dia após dia. Só se estiver apaixonado por Cristo, o sacerdote poderá ensinar a todos esta união, esta amizade íntima com o divino Mestre; poderá tocar os corações das pessoas e abri-las ao amor misericordioso do Senhor. Só assim poderá infundir entusiasmo e vitalidade espiritual à comunidade que o Senhor lhe confia. 

Oremos para que, por intercessão de São João Maria Vianney, Deus conceda santos sacerdotes à sua Igreja e para que cresça nos fiéis o desejo de sustentar e auxiliar o seu ministério. Confiemos esta intenção a Maria, que hoje invocamos como Nossa Senhora das Neves. [Traduzido do italiano por Alexandre Ribeiro. Após a audiência, o Papa saudou os peregrinos em diferentes idiomas. Em português, disse:] Amados peregrinos de língua portuguesa, sede bem-vindos! A todos saúdo com grande afeto e alegria, nomeadamente aos grupos que vieram de Palhaça e do Brasil com o desejo de encontrar o Sucessor de Pedro. Com votos de que vossas existências sejam uma catequese vivente como foi a vida do santo Cura d'Ars, desça sobre vós, vossas famílias e comunidades a minha Bênção. 

fonte: Libreria Editrice Vaticana (05 de Agosto de 2009)

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