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sábado, 30 de abril de 2011

Festa da Divina Misericórdia - 01 de Maio de 2011

  
Festa da Divina Misericórdia - Segundo Domingo da Páscoa
'A humanidade não conseguirá a paz enquanto não se dirigir com confiança à Minha Misericórdia'

Impressionante para os dias de hoje, a mensagem de Nosso Senhor a Santa Faustina Kowalska
Santa Faustina Kowalska


A Festa da Divina Misericórdia tem como fim principal fazer chegar aos corações de cada pessoa a seguinte mensagem: Deus é misericordioso e nos ama a todos... 'e quanto maior é o pecador, tanto maior o direito que tem à minha Misericórdia'(Diário, 723). Nesta mensagem, que Nosso Senhor nos fez chegar por Santa Faustina, nos pede que tenhamos plena confiança na Misericórdia de Deus, e que sejamos sempre misericordiosos com o próximo por meio de nossas palavras, ações e orações... 'porque a fé sem obras, por mais forte que seja, é inútil' (Diário, 742).

A Essência da Devoção

1. Devemos confiar na Misericórdia do Senhor Jesus, por meio de Santa Faustina nos diz: 'Desejo conceder graças inimagináveis às almas que confiam em minha misericórdia. Que se aproximem deste mar de misericórdia com grande confiança. Os pecadores obterão a justificação e os justos serão fortalecidos no bem . Quem depositar sua confiança em minha Misericórdia, encherei sua alma com minha paz divina'.

2. A confiança é a essência, a alma desta devoção e a condição para receber essas graças.'As graças de minha misericórdia se tomam com um só recipiente, que é a confiança'. Quanto mais uma alma confia, tanto mais receberá. 'As almas que confiam sem limite são meu grande consolo e sobre elas derramou todos os tesouros de minha graça. Alegro-me que me peçam muito porque meu desejo é dar muito, muitíssimo. A alma que confia em minha misericórdia é a mais feliz, porque eu mesmo cuido dela. Nenhuma alma que tenha invocado minha misericórdia ficou decepcionada, nem ficou confusa. Compraz-me particularmente a alma que confia em minha bondade'.


3. A misericórdia define nossa atitude diante de cada pessoa. 'Exijo de ti obras de misericórdia que devem surgir do amor por mim. Deves mostrar misericórdia sempre e em toda parte. Não podes deixar de faze-lo, nem desculpar-te, nem justificar-te. Dou-te três formas de exercer a misericórdia: a primeira é a ação; a segunda a palavra; e a terceira, a oração. Nestas três formar se encerra a plenitude da misericórdia e é um testemunho indefectível do amor a Mim. Deste modo a alma louva e adora minha misericórdia'.

4. A atitude do amor ativo com relação ao próximo é outra condição para receber graças. 'Se a alma não pratica a misericórdia de alguma maneira, não conseguirá minha misericórdia no dia do juízo. Ó, se as almas soubessem acumular os tesouros eternos, não seriam julgadas, porque a misericórdia anteciparia meu juízo'.

5. O Senhor deseja que seus devotos façam pelo menos uma obra de misericórdia por dia. 'Deves saber, minha filha que meu coração é a própria misericórdia. Deste mar de misericórdia as graças se derramam para todo o mundo. Desejo que teu coração seja a sede de minha misericórdia. Desejo que essa misericórdia se derrame sobre todo o mundo através de teu coração. Quem quer que se aproxime de ti, não pode ir-se sem confiar em minha misericórdia, que tanto desejo para as almas'.

A Santa sé decreta o dia da Divina Misericórdia

Uma proposta de Santa Faustina Kowalska

A Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, publicou a 23 de maio de 2000, um decreto em que estabelece, por indicação de João Paulo II, a festa da Divina Misericórdia, que será sempre celebrada no 'Segundo Domingo da Páscoa, ou da Divina Misericórdia' .

O Papa já tinha anunciado durante a canonização de Santa Faustina Kowalska: 'Em todo o mundo, o segundo domingo da Páscoa receberá o nome de domingo da Divina Misericórdia. Um convite perene para o mundo cristão enfrentar, com confiança na benevolência divina, as dificuldades e as provas que esperam o gênero humano nos anos que virão'.

O papa João Paulo II escreveu sobre o assunto uma de suas Encíclicas: 'Dives in misericordia'

Os apóstolos da Divina Misericordia estão integrados por sacerdotes, religiosos e leigos, unidos pelo compromisso de viver a misericórdia com relação aos irmãos, tornar conhecido o mistério da divina misericórdia, e invocar a misericórdia de Deus para os pecadores. Esta família espiritual, aprovada em 1996 pela Arquidiocese de Cracóvia, está hoje presente em 29 países do mundo

Aspecto atual da capela em Ostra Brama (Ausros Vartai)
Sanuário de Nossa Sra da Misericórdia - Vilna (Vilnius, Lituânia)
(veja Icone Nossa Senhora)

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Mensagem de Páscoa do Santo Padre Bento XVI - Domingo da Ressurreição.

«In resurrectione tua, Christe, coeli et terra laetentur – Na vossa Ressurreição, ó Cristo, alegrem-se os céus e a terra» (Liturgia das Horas).

Amados irmãos e irmãs de Roma e do mundo inteiro!

A manhã de Páscoa trouxe-nos este anúncio antigo e sempre novo: Cristo ressuscitou! O eco deste acontecimento, que partiu de Jerusalém há vinte séculos, continua a ressoar na Igreja, que traz viva no coração a fé vibrante de Maria, a Mãe de Jesus, a fé de Madalena e das primeiras mulheres que viram o sepulcro vazio, a fé de Pedro e dos outros Apóstolos.

Até hoje – mesmo na nossa era de comunicações supertecnológicas – a fé dos cristãos assenta naquele anúncio, no testemunho daquelas irmãs e daqueles irmãos que viram, primeiro, a pedra removida e o túmulo vazio e, depois, os misteriosos mensageiros que atestavam que Jesus, o Crucificado, ressuscitara; em seguida, o Mestre e Senhor em pessoa, vivo e palpável, apareceu a Maria de Magdala, aos dois discípulos de Emaús e, finalmente, aos onze, reunidos no Cenáculo (cf. Mc 16, 9-14).

A ressurreição de Cristo não é fruto de uma especulação, de uma experiência mística: é um acontecimento, que ultrapassa certamente a história, mas verifica-se num momento concreto da história e deixa nela uma marca indelével. A luz, que encandeou os guardas de sentinela ao sepulcro de Jesus, atravessou o tempo e o espaço. É uma luz diferente, divina, que fendeu as trevas da morte e trouxe ao mundo o esplendor de Deus, o esplendor da Verdade e do Bem.

Tal como os raios do sol, na primavera, fazem brotar e desabrochar os rebentos nos ramos das árvores, assim também a irradiação que dimana da Ressurreição de Cristo dá força e significado a cada esperança humana, a cada expectativa, desejo, projecto. Por isso, hoje, o universo inteiro se alegra, implicado na primavera da humanidade, que se faz intérprete do tácito hino de louvor da criação. O aleluia pascal, que ressoa na Igreja peregrina no mundo, exprime a exultação silenciosa do universo e sobretudo o anseio de cada alma humana aberta sinceramente a Deus, mais ainda, agradecida pela sua infinita bondade, beleza e verdade.

«Na vossa ressurreição, ó Cristo, alegrem-se os céus e a terra». A este convite ao louvor, que hoje se eleva do coração da Igreja, os «céus» respondem plenamente: as multidões dos anjos, dos santos e dos beatos unem-se unânimes à nossa exultação. No Céu, tudo é paz e alegria. Mas, infelizmente, não é assim sobre a terra! Aqui, neste nosso mundo, o aleluia pascal contrasta ainda com os lamentos e gritos que provêm de tantas situações dolorosas: miséria, fome, doenças, guerras, violências. E todavia foi por isto mesmo que Cristo morreu e ressuscitou! Ele morreu também por causa dos nossos pecados de hoje, e também para a redenção da nossa história de hoje Ele ressuscitou. Por isso, esta minha mensagem quer chegar a todos e, como anúncio profético, sobretudo aos povos e às comunidades que estão a sofrer uma hora de paixão, para que Cristo Ressuscitado lhes abra o caminho da liberdade, da justiça e da paz.

Possa alegrar-se aquela Terra que, primeiro, foi inundada pela luz do Ressuscitado. O fulgor de Cristo chegue também aos povos do Médio Oriente para que a luz da paz e da dignidade humana vença as trevas da divisão, do ódio e das violências. Na Líbia, que as armas cedam o lugar à diplomacia e ao diálogo e se favoreça, na situação actual de conflito, o acesso das ajudas humanitárias a quantos sofrem as consequências da luta. Nos países da África do Norte e do Médio Oriente, que todos os cidadãos – e de modo particular os jovens – se esforcem por promover o bem comum e construir um sociedade, onde a pobreza seja vencida e cada decisão política seja inspirada pelo respeito da pessoa humana. 

A tantos prófugos e aos refugiados, que provêm de diversos países africanos e se vêem forçados a deixar os afectos dos seus entes mais queridos, chegue a solidariedade de todos; os homens de boa vontade sintam-se inspirados a abrir o coração ao acolhimento, para se torne possível, de maneira solidária e concorde, acudir às necessidades prementes de tantos irmãos; a quantos se prodigalizam com generosos esforços e dão exemplares testemunhos nesta linha chegue o nosso conforto e apreço.

Possa recompor-se a convivência civil entre as populações da Costa do Marfim, onde é urgente empreender um caminho de reconciliação e perdão, para curar as feridas profundas causadas pelas recentes violências. Possa encontrar consolação e esperança a terra do Japão, enquanto enfrenta as dramáticas consequências do recente terremoto, e demais países que, nos meses passados, foram provados por calamidades naturais que semearam sofrimento e angústia.

Alegrem-se os céus e a terra pelo testemunho de quantos sofrem contrariedades ou mesmo perseguições pela sua fé no Senhor Jesus. O anúncio da sua ressurreição vitoriosa neles infunda coragem e confiança.

Queridos irmãos e irmãs! Cristo ressuscitado caminha à nossa frente para os novos céus e a nova terra (cf. Ap 21, 1), onde finalmente viveremos todos como uma única família, filhos do mesmo Pai. Ele está connosco até ao fim dos tempos. Sigamos as suas pegadas, neste mundo ferido, cantando o aleluia. No nosso coração, há alegria e sofrimento; na nossa face, sorrisos e lágrimas. A nossa realidade terrena é assim. Mas Cristo ressuscitou, está vivo e caminha connosco. Por isso, cantamos e caminhamos, fiéis ao nosso compromisso neste mundo, com o olhar voltado para o Céu.


(Mensagem de Páscoa que Bento XVI dirigida aos peregrinos do balcão central da Basílica de São Pedro, no Domingo da Ressurreição)
 
fonte: www.catolicosempre.org.

domingo, 24 de abril de 2011

24 Abr 2011 - Domingo de Páscoa - Sermão de São João Crisóstomo

  Quem tiver piedade e amor a Deus, regozige-se nesta gloriosa e brilhante festa. Quem for servo bom, entre e alegre-se no gozo de seu Senhor. 

 Quem suportou a fadiga do jejum, receba agora a recompensa; quem trabalhou desde a primeira hora, receba hoje o seu justo salário. Quem veio após a terceira hora, festeje com gratidão. Quem chegou após a sexta hora, entre sem hesitar, porque não será renegado. Quem atrasou-se até a nona hora, venha sem receio e medo.


Quem chegou somente na décima primeira hora, não tenha medo por causa de sua demora, porque o Senhor é generoso. Acolhe o ultimo como o primeiro; remunera o operário da décima primeira hora como o da primeira; cobre um com sua misecórdia e outro com sua graça. é generoso com um e ao outro concede; aceita as obras e abençoa a intenção, recompensa o trabalho e louva a boa vontade.


Entrai pois todos no gozo de nosso Senhor. Primeiros e ultimos, recebei a recompensa; ricos e pobres, alegrai-vos juntos; justos e pecadores, honrai este dia; os que jejuaram e os que não jejuaram, regozijai-vos uns com os outros; a mesa é farta; saciai-vos á vontade; o vitelo é gordo, que ninguém se retire com fome; participem todos do banquete da fé, que todos recebam a riqueza da graça; que ninguém se constranja da pobreza, porque o reino universal foi proclamado; que ninguém chore por causa de seus pecados, porque o perdão jorrou do tumulo. Que ninguém tema a morte, porque a morte do Salvador nos libertou a todos.


O salvador destruiu a morte, quando a ela se submeteu; despojou o inferno quando nele desceu. o inferno tocou seu corpo e foi aniquilado. Foi isto que profetizou Izaias, exclamando: o inferno ficou aflito ao encontrar-te; aflito, pois foi arruinado; aflito e menosprezado; foi executado e menosprezado; aflito pois foi subjugado. Agarrou um corpo e encontrou um Deus; apossou-se da terra e achou-se diante do céu. Pegou o que viu, e caiu naquilo que não viu. Onde está o teu aguilhão, ó morte! Onde está a tua vitória, ó inferno? Cristo ressuscitou e foste arrazado; Cristo ressuscitou, e os demonios foram vencidos; Cristo ressuscitou e os anjos rejubilam-se; Cristo ressuscitou e a vida foi restituida; Cristo ressuscitou e não ficou mais nenhum morto no tumulo, porque Cristo pela sua ressureição dos mortos tornou-se primaz dentre os mortos. A êle a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amem.

Cristo ressuscitou!

Figuras da Páscoa no Antigo Testamento

O sacrifício do cordeiro pascal; a salvação dos primogênitos israelitas com o sangue dele
(Gen. 12).  A passagem milagrosa dos israelitas no Mar Vermelho e a salvação da escravidão egípcia (Exo.14:22). A legislação no Monte Sinai 50o dias após a saída do Egito e a conclusão da aliança com Deus (Exo. 19).

O maná enviado pôr Deus (Exo. 16:14). A peregrinação de 40 anos pelo deserto e as diversas provações, as quais reforçaram nos israelitas a fé em Deus. A colocação da serpente de bronze. O hebreu que a olhasse era salvo de ser mordido pôr serpentes venenosas (Num. 21:9).
A entrada dos hebreus na terra prometida

A Páscoa no Novo Testamento


A crucificação do Cordeiro de Deus, por Cujo Sangue fomos remidos e nos foram abertas as portas do céu. A sua ressureição gloriosa ao terceiro dia – isto é a passagem deste mundo para a glória eterna (1 Ped. 1:19).

O batismo na água e a salvação da escravidão do demônio (1 Cor. 10:1-2; veja também em Romanos Cap 6 e 7). A vinda do Espírito Santo Paráclito sobre os Apóstolos 50 dias após a Páscoa (Atos, cap. 2).A instituição da Santíssima Eucaristia como Manjar Celestial – O Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo (S. João cap. 6). A promessa da vida eterna no céu; a nova Jerusalém. (2 Ped. 3:13).

Reflexão 






Oh, Páscoa, Magnífica e Sagrada, Oh, Cristo! Força e palavra de Deus! Permita a nós nos unirmos completamente a Tí no dia infinito do Teu Reino (Cor. 5:7; 13:12).Oh, como é divina, dócil e maravilhosa a Tua palavra, Oh Cristo! Tu prometeste estar conosco até o fim do mundo. Tendo esta esperança de apoio, nós, crentes, nos alegramos (Mat. 28:20).

Ontem eu fui sepultado conTigo, Oh Cristo, e hoje eu me ergo conTigo ressuscitado; ontem eu fui crucificado conTigo. Glorifica-me. Oh Salvador, em Teu Reino (Rom. 6:3-4).Nós celebramos a mortificação da morte, a destruição do inferno, o início de outra vida, a vida eterna e saltamos de alegria e glorificamos o Responsável por tudo, o único Deus dos homens, Abençoado e Glorioso (Ose. 13:14).

Fonte :
http://portalcot.com/br
/blog/homilia-de-pascoa-de-sao-joao-crisostomo/

sábado, 23 de abril de 2011

23 Abr 2011 - Sábado Santo Vigília Pascal

Sermão de Santo Agostinho na Vigília Pascal
O bem-aventurado apóstolo Paulo, exortando-nos a que o imitemos, dá entre outros sinais de sua virtude o seguinte: "freqüente nas vigílias" [2Cor 11,27]. Com quanto maior júbilo não devemos também nós vigiar nesta vigília, que é como a mãe de todas as santas vigílias, e na qual o mundo todo vigia? Não o mundo, do qual está escrito: "Se alguém amar o mundo, nele não está a caridade do Pai, pois tudo o que há no mundo é concupiscência dos olhos e ostentação do século, e isto não procede do pai" [1Jo 2,15].
 
 
Sobre tal mundo, isto é, sobre os filhos da iniqüidade, reinam o demônio e seus anjos. E o Apóstolo diz que é contra estes que se dirige a nossa luta: "Não contra a carne e o sangue temos de lutar, mas contra os principados e as potestades, contra os dominadores do mundo destas trevas" [Ef 6,12]. Ora, maus assim fomos nós também, uma vez; agora, porém, somos luz no Senhor. Na Luz da Vigília resistamos, pois, aos dominadores das trevas. Não é, portanto, esse o mundo que vigia na solenidade de hoje, iras aquele do qual está escrito: "Deus estava reconciliando consigo o mundo, em Cristo, não lhe imputando os seus pecados" [2Cor 5,19].
 
 
E é tão gloriosa a celebridade desta vigília, que compele a vigiarem na carne mesmo os que, no coração, não digo dormirem, mas até jazerem sepultos na impiedade do tártaro. Vigiam também eles esta noite, na qual visivelmente se cumpre o que tanto tempo antes fora prometido: "E a noite se iluminará como o dia" [Sl 138,12]. Realiza-se isto nos corações piedosos, dos quais se disse: "Fostes outrora trevas, mas agora sois luz no Senhor". Realiza-se isto também nos que zelam por todos, seja vendo-os no Senhor, seja invejando ao Senhor. Vigiam, pois, esta noite, o mundo inimigo e o mundo reconciliado.
 
 
Este, liberto, para louvar o seu Médico; aquele, condenado, para blasfemar o seu juiz. Vigia um, nas mentes piedosas, ferventes e luminosas; vigia o outro, rangendo os dentes e consumindo-se. Enfim, ao primeiro é a caridade que lhe não permite dormir, ao segundo, a iniqüidade; ao primeiro, o vigor cristão, ao segundo o diabólico. Portanto, pelos nossos próprios inimigos sem o saberem eles, somos advertidos de como devamos estar hoje vigiando por nós, se por causa de nós não dormem também os que nos invejam. Dentre ainda os que não estão assinalados com o nome de cristãos, muitos são os que não dormem esta noite por causa da dor, ou por vergonha.
 
 
Dentre os que se aproximam da fé, há os que não dormem por temor. Por motivos vários, pois, convida hoje à vigília a solenidade (da Páscoa), Por isso, como não deve vigiar com alegria aquele que é amigo de Cristo, se até o inimigo o faz, embora contrariado? Como não deve arder o cristão por vigiar, nessa glorificação tão grande de Cristo, se até o pagão se en- vergonha de dormir? Como não deve vigiar em sua solenidade, o que já ingressou nesta grande Casa, se até o que apenas pretende nela ingressar já vigia?
 
 
Vigiemos, e oremos; para que tanto exteriormente quanto interiormente celebremos esta Vigília. Deus nos falará durante as leituras; falemo-lhe também nós em nossas preces. Se ouvimos obedientemente as suas palavras, em nós habita Aquele a quem oramos.
 
Canto do Exultet

Exulte de alegria a multidão dos anjos, Fonte: http://pt.shvoong.com/humanities

Exultem de Deus os ministros;
Soe a triunfal trombeta,
Esta vitória de um tão grande Rei!

Alegra-te também, ó terra nossa
Que em tantas luzes agora resplandeces,
Vê como foge do universo a treva,
Enquanto fulge a luz do eterno Rei!

Alegra-te também, ó Mãe Igreja,
Ornada inteira de esplendor divino,
Escuta como vibra neste templo
A aclamação do povo!

Prefácio:  

Na verdade é nosso dever e salvação
cantar de coração e a plena voz
Ó Pai todo-poderoso, Deus invisível,
E seu único Filho, Jesus Cristo Senhor nosso.
Foi Ele quem pagou por nós ao Pai eterno,
O preço da dívida de Adão,
E foi quem apagou só por amor, no sangue derramado,
A condenação da antiga culpa.
Eis, pois a festa da Páscoa,
Na qual foi posto à morte o verdadeiro Cordeiro,
Cujo sangue consagrou
As portas dos fiéis.
Eis a noite, em que tirastes do Egito
Os nossos pais, os filhos de Israel,
A quem fizestes transpor
O Mar Vermelho a pé enxuto.
Eis a noite em que a coluna luminosa
Dissipou as trevas do pecado.
Eis a noite que arranca ao mundo corrompido, cego pelo mal,
Os que hoje, em toda a terra, puseram a sua fé no Cristo.
Noite em que os devolve à graça
E os introduz na comunhão dos santos.
Eis a noite em que o Cristo, quebrando os vínculos da morte,
Sai vitorioso do sepulcro.
Oh! imensa comiseração da vossa graça,
Imprevisível amor para conosco:
A fim de resgatar o escravo,
Entregais vosso Filho.
Ó pecado de Adão sem dúvida necesário,
Pois a morte do Cristo o destrói!
Bendita culpa,
Que nos vale um semelhante Redentor!
Pois o poder santificante desta noite
Expulsa o crime e lava as culpas,
Devolve a inocência aos pecadores,
A alegria aos aflitos,
Dissipa o ódio, prepara a concórdia,
Desarma os impérios.
Noite em que o céu se une à terra,
E o homem com Deus se encontra.
Na graça desta noite, acolhei, Pai Santo,
Como sacrifício de louvor vespertino,
A chama que sobe desta coluna de cera
Que a igreja, por nossas mãos Vos oferece.
Por isto, Senhor, Vos pedimos:
Fazei que este círio pascal
Consagrado ao Vosso nome,
Brilhe sem declínio e afugente as trevas desta noite.
Que o astro da manhã
O encontre ainda aceso,
Aquele que não conhece ocaso:
O Cristo ressuscitado dos mortos,
Que espalha sobre os homens sua luz e sua paz.
Ele que convosco vive e reina
Na unidade do Espírito Santo.
Por todos os séculos dos séculos
Amén.


Sermão de Santo Agostinho - Vigília Pascal

sexta-feira, 22 de abril de 2011

22 Abr 2011 - Sexta Feira Santa - Meditação da Paixão do Senhor - St. Afonso Maria de Ligório

O amante das almas, nosso amantíssimo Redentor, declarou que não teve outro fim, vindo à terra e fazendo-se homem, que acender o fogo do santo amor nos corações dos homens. “Eu vim trazer fogo à terra e que mais desejo senão que ele se acenda?” (Lc 12,49). E, de fato, que belas chamas de caridade não acendeu ele em tantas almas, particularmente com os sofrimentos que teve de padecer na sua morte, a fim de patentear-nos o amor imenso que nos dedica!

Oh! quantos corações, sentindo-se felizes nas chagas de Jesus, como em fornalhas ardentes de amor, se deixaram inflamar de tal modo por seu amor, que não recusaram consagrar-lhe os bens, a vida e a si esmos inteiramente, vencendo corajosamente todas as dificuldades que se lhes deparavam na observância da Divina lei, por amor daquele Senhor que, sendo Deus, quis sofrer tanto por amor deles!

Foi justamente este o conselho que nos deu o Apóstolo, para não desfalecermos mas até corrermos expeditamente no caminho do céu: “Considerai, pois, atentamente aquele que suportou tal contradição dos pecadores contra a sua pessoa, para que vos não fatigueis, desfalecendo em vossos ânimos” (Hb 12,3).

2. Por isso, S. Agostinho, ao contemplar Jesus todo chagado na  cruz, orava afetuosamente: “Escrevei, Senhor, vossas chagas em meu coração, para que nelas eu leia a dor e o amor: a dor, para suportar por vós todas as dores; o amor, para desprezar por vós todos os amores”. Porque, tendo diante dos meus olhos a grande dor que vós, meu Deus, sofrestes por mim, sofrerei pacientemente todas as penas que tiver de suportar, e à vista do vosso amor, de que me destes prova na cruz, eu não amarei nem poderei amar senão a vós.

3. E de que fonte hauriram os santos o ânimo e a força para sofrer  os tormentos, o martírio e a morte, senão dos tormentos de Jesus crucificado? S. José de Leonissa, capuchinho, vendo que queriam atá-lo com cordas para uma operação dolorosa que o cirurgião devia fazer-lhe, tomou nas mãos o seu crucifixo e disse: Cordas? que cordas! eis aqui os meus laços. Este Senhor pregado por meu amor com suas dores obriga-me a suportar qualquer tormento por seu amor. E dessa maneira suportou a operação sem se queixar, olhando para Jesus, que “como um cordeiro se calou diante do tosquiador e não abriu a sua boca” (Is 53,7). Quem mais poderá dizer que padece injustamente vendo Jesus que “foi dilacerado por causa de nossos crimes?”

Quem mais poderá recusar-se a obedecer, sob pretexto de qualquer incômodo, contemplando Jesus “feito obediente até à morte?” Quem poderá rejeitar as ignomínias, vendo Jesus tratado como louco, como reide burla, como malfeitor, esbofeteado, cuspido no rosto e suspenso num patíbulo infame?

4. Quem, pois, poderá amar um outro objeto além de Jesus, vendo-o morrer entre tantas dores e desprezos, a fim de conquistar o nosso amor? Um pio solitário rogava ao Senhor que lhe ensinasse o que deveria fazer para amá-lo perfeitamente. O Senhor revelou-lhe que, para chegar a seu perfeito amor, não havia exercício mais próprio que meditar freqüentemente na sua Paixão. Queixava-se S. Teresa amargamente de alguns livros, que lhe haviam ensinado a deixar de meditar na Paixão de Jesus Cristo, porque isto poderia servir de
impedimento à contemplação da divindade.

Pelo que a santa exclamava: “Ó Senhor de minha alma, ó meu bem, Jesus Crucificado, não posso recordar-me dessa opinião sem me julgar culpada de uma grande  infidelidade. Pois seria então possível que vós, Senhor, fôsseis um impedimento para um bem maior? E donde me vieram todos os bens  senão de vós?” E em seguida ajuntava: “Eu vi que, para contentar a Deus e para que nos conceda grandes graças, ele quer que tudo passe pelas mãos dessa humanidade sacratíssima, na qual se compraz sua divina majestade”.

5. Por isso dizia o Padre Baltasar Álvarez que o desconhecimento dos tesouros que possuímos em Jesus é a ruína dos cristãos, sendo por essa razão a Paixão de Jesus Cristo sua meditação preferida e mais usada, considerando em Jesus especialmente três de seus tormentos: a pobreza, o desprezo e as dores, e exortava os seus penitentes a meditar freqüentemente na Paixão do Redentor, afirmando que não julgassem ter feito progresso algum se não chegassem a ter sempre impresso no coração a Jesus crucificado.

6. Ensina S. Boaventura que quem quiser crescer sempre de virtude em virtude, de graça em graça, medita sempre Jesus na sua Paixão. E ajunta que não há exercício mais útil para fazer santa uma alma do que considerar assiduamente os sofrimentos de Jesus Cristo.

7. Além disso afirmava S. Agostinho (ap. Bern. de Bustis) que vale mais uma só lágrima derramada em recordação da Paixão de Jesus, que uma peregrinação a Jerusalém e um ano de jejum a pão e água. E na verdade, porque vosso amante Salvador padeceu tanto senão para que nisso pensássemos e pensando nos inflamássemos no amor para com ele? “A caridade de Cristo nos constrange”, diz S. Paulo (2Cor 5,14). Jesus é amado por poucos, porque poucos são os que meditam nas penas que por nós sofreu; que, porém, as medita a miúdo, não poderá viver sem amar a Jesus: sentir-se-á de tal maneira constrangido por seu amor que não lhe será possível resistir e deixar de amar a um Deus tão amante e que tanto sofreu para se fazer amar.

8. Essa é a razão por que dizia o Apóstolo que não queria saber outra coisa senão Jesus e Jesus Crucificado, isto é, o amor que ele  nos testemunhou na cruz. “Não julgueis que eu sabia alguma coisa entre vós senão a Jesus Cristo e este crucificado (1Cor 2,2). E na verdade, em que livros poderíamos aprender melhor a ciência dos santos (que é a ciência de amar a Deus) do que em Jesus Crucificado? O grande servo de Deus, Frei Bernardo de Corleone, capuchinho,  não sabendo ler, queriam seus confrades ensinar-lhe. Ele, porém, foi primeiro aconselhar-se com seu crucifixo e Jesus respondeu-lhe da cruz: “Que livro! Que ler! eu sou o teu livro, no qual poderás sempre ler o amor que eu te consagro!” Oh! que grande assunto de meditação para toda a vida e para toda a eternidade: um Deus morto por meu amor!

9. Visitando uma vez S. Tomás d’Aquino a S. Boaventura, perguntou- lhe de que livro se havia servido para escrever tão belas coisas que havia publicado. S. Boaventura mostrou-lhe a imagem de Jesus crucificado, toda enegrecida pelos muitos beijos que lhe imprimira, dizendo-lhe: “Eis o meu livro, donde tiro tudo o que escreve; ele ensinou-me o pouco que eu sei”. Todos os santos aprenderam a arte de amar a Deus no estudo do crucifixo. Fr. João de Alvérnia, todas as vezes que contemplava Jesus coberto de chagas, não podia conter a lágrimas. Fr. Tiago de Todi, ouvindo ler a Paixão do Redentor, não só derramava abundantes lágrimas, mas prorrompia em soluços, oprimido pelo amor de que se sentia abrasado por seu amado Senhor.

10. S. Francisco fez-se aquele grande serafim pelo doce estudo do crucifixo. Chorava tanto ao meditar os sofrimentos de Jesus Cristo, que perdeu quase totalmente a vista. Uma vez encontraram-no chorando em altas vozes e perguntaram-lhe a razão. “O que eu tenho? Respondeu o santo, eu choro por causa dos sofrimentos e das  afrontas ocasionadas ao meu Senhor e minha pena cresce e aumenta vendo a ingratidão dos homens que não o amam e dele se esquecem”. Todas as vezes que ouvia balar um cordeiro, sentia grande compaixão, pensando na morte de Jesus, Cordeiro imaculado, sacrificado na cruz pelos pecados do mundo. Por isso, esse grande amante de Jesus nada recomendava com tanta solicitude a seus irmãos como
a meditação constante da Paixão de Jesus.

11. Eis, portanto, o livro, Jesus Crucificado, que, se for constantemente lido por nós, também nós aprenderemos de um lado temer o pecado e doutro nos abrasaremos em amor por um Deus tão amante, tendo em suas chagas a malícia do pecado que reduziu um Deus a sofrer uma morte tão amarga para por nós satisfazer a justiça divina e o amor que nos manifestou o Salvador, querendo sofrer tanto  para nos fazer compreender o quanto nos amava.

12. Supliquemos à divina Mãe Maria, que nos obtenha de seu Filho a graça de entrarmos nessa fornalha de amor onde ardem tantos corações para que aí sejam destruídos nossos afetos terrenos e possamos nos abrasar naquelas chamas bem-aventuradas que fazem as almas santas na terra e bem-aventuradas no céu

Fonte:
"A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo"
Por Sto. Afonso Maria de Ligõrio

Traduzidas pelo Pe. José Lopes Ferreira, C.Ss.R.
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quarta-feira, 20 de abril de 2011

21 Abr 2011 - Quinta Feira Santa - Instituição da Ssma. Eucaristia e do Sacerdócio


"A liturgia de Quinta-Feira Santa é riquíssima de conteúdo. É o grande dia da instituição da Sagrada Eucaristia, dom do Céu para os homens; o dia da instituição do sacerdócio, nova prenda divina que assegura a presença real e atual do Sacrifício do Calvário em todos os tempos e lugares, tornando possível que nos apropriemos dos seus frutos.


Aproximava-se o momento em que Jesus ia oferecer a sua vida pelos homens. Tão grande era o seu amor, que na sua Sabedoria infinita encontrou o modo de ir e de ficar, ao mesmo tempo. São Josemaria, ao considerar o comportamento dos que se vêem obrigados a deixar a sua família e a sua casa, para procurar emprego em outro lugar, comenta que o amor humano costuma recorrer aos símbolos. As pessoas que se despedem trocam lembranças entre si, talvez uma fotografia… Jesus Cristo, perfeito Deus e perfeito Homem, não deixa um símbolo, mas uma realidade. Fica Ele mesmo. Embora vá para o Pai, permanece entre os homens. Sob as espécies do pão e do vinho está Ele, realmente presente, com o seu Corpo, o seu Sangue, a sua Alma e a sua Divindade.


Como responderemos a esse amor imenso? Assistindo com fé e devoção à Santa Missa, memorial vivo e atual do Sacrifício do Calvário. Preparando-nos muito bem para comungar, com a alma bem limpa. Visitando Jesus com freqüência, escondido no Sacrário.


A primeira leitura da Missa, recorda o que Deus estabeleceu no Antigo Testamento, para que o povo israelita não se esquecesse dos benefícios recebidos. Desce a muitos detalhes: desde como devia ser o cordeiro pascoal, até aos pormenores que tinham de cuidar para recordar a passagem do Senhor. Se isso se prescrevia para comemorar alguns acontecimentos históricos, que eram só uma imagem da libertação do pecado realizada por Jesus Cristo, como deveríamos comportar-nos agora, quando verdadeiramente fomos resgatados da escravidão do pecado e feitos filhos de Deus!


Esta é a razão por que a Igreja nos inculca um grande esmero em tudo o que se refere à Eucaristia. Assistimos ao Santo Sacrifício todos os domingos e festas de guarda, sabendo que estamos participando numa ação divina?


São João relata que Jesus lavou os pés dos discípulos, antes da Última Ceia. Temos de estar limpos, na alma e no corpo, e aproximarmos para recebê-lo com dignidade. Para isso nos deixou o Sacramento da Penitência.


Comemoramos também a instituição do sacerdócio. É um bom momento para rezar pelo Papa, pelos Bispos, pelos sacerdotes, e para rogar que haja muitas vocações no mundo inteiro. Pediremos melhor na medida em que tenhamos mais diálogo com esse Jesus, que instituiu a Eucaristia e o Sacerdócio. Vamos dizer, com total sinceridade, o que repetia São Josemaria: Senhor, põe no meu coração o amor com que queres que eu te ame.


Na cena de hoje Nossa Senhora não aparece fisicamente, ainda que estivesse em Jerusalém naqueles dias: encontrá-la-emos amanhã ao pé da Cruz. Mas já hoje, com a sua presença discreta e silenciosa, acompanha muito de perto o seu Filho, em profunda união de oração, de sacrifício e de entrega. João Paulo II assinala que, depois da Ascensão do Senhor ao Céu, participaria assiduamente nas celebrações eucarísticas dos primeiros cristãos. E acrescenta o Papa: “aquele corpo, entregue em sacrifício e presente agora nas espécies sacramentais, era o mesmo corpo concebido no seu ventre! Receber a Eucaristia devia significar para Maria quase acolher de novo no seu ventre aquele coração que batera em uníssono com o dEla” (Ecclesia de Eucharistia, 56).


Também agora Nossa Senhora acompanha Cristo em todos os sacrários da terra. Peçamos-lhe que nos ensine a ser almas de Eucaristia, homens e mulheres de fé segura e de piedade forte, que se esforçam por não deixar Jesus só. Que saibamos adorá-lo, pedir-lhe perdão, agradecer os seus benefícios, fazer-lhe companhia.

 Tríduo Pascal




Estamos próximos da vigília do Tríduo Pascal. Os próximos três dias são comumente chamados de santos porque nos fazem reviver o evento central da nossa Redenção; reconduzem-nos, de fato, ao núcleo essencial da fé cristã: a paixão, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo. São dias que poderemos considerar com um único dia: eles constituem o coração e o fulcro de todo ano litúrgico, como também da vida da Igreja. Ao término do itinerário quaresmal, estamos prestes também nós a entrar no próprio clima que Jesus viveu então em Jerusalém.

Queremos redespertar em nós a viva memória do sofrimento que o Senhor padeceu por nós e nos preparar para celebrar com alegria, no próximo domingo, a verdadeira Páscoa, que o Sangue de Cristo cobriu de glória, a Páscoa na qual a Igreja celebra a Festa que é a origem de todas as festas, como diz o Prefácio para o dia de Páscoa
"Ó abismo da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Como são insondáveis seus juízos e impenetráveis seus caminhos!... Porque tudo é dele, por ele e para ele. A ele a glória pelos séculos! Amém” (Rm 11, 33.36).

A expressão de maravilha e de louvor por parte de São Paulo Apóstolo, diante do mistério da aliança irrevogável de Deus com Israel - aliança que vai além da sua infidelidade - e do chamado dos pagãos a participarem da sua plena realização na morte e ressurreição de Cristo, bem interpreta os sentidos mais profundos da Igreja ao celebrar o solene Tríduo Pascal. Este evento Pascal é a fonte divina e perene da sua vida, assim como do caminho espiritual desenvolvido ao longo do ano litúrgico. A Igreja nos convida a entrar em atitude de maravilha e adoração.


A Quinta-feira santa:
“Jesus... tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”

A missa do Crisma, celebrada na manhã pelo bispo em sua catedral, reunido com todo clero e do povo, encerra a quaresma  e consagraga os Santos Óleos,  destinados aos catecúmenos  - usados especialmente durante a grande vigília pascal - e na administração dos Sacramentos do Batismo e a da Extrema Unção.

A Missa da Ceia do Senhor, a tarde (Ex 12, 1-14; 1 Cor 11, 23-26; Jo 13, 1-15), abre o Tríduo, recordando o gesto de amor e de humildade com que Jesus, o Mestre e o Senhor, lava os pés de seus discípulos e determina o novo mandamento : 


"Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo ao Pai, havendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim".  É um preâmbulo ternamente afetuoso, paralelo ao do relato de São Lucas: Ardentemente - afirma o Senhor - desejei comer convosco esta páscoa, antes de padecer.




"O Senhor pode o que nós não podemos. Jesus Cristo, perfeito Deus e perfeito Homem, não nos deixa um símbolo, mas a própria realidade: fica Ele mesmo. Irá para o Pai, mas permanecerá com os homens. Não nos deixará um simples presente que nos lembre a sua memória, uma imagem que se dilua com o tempo, como a fotografia que em breve se esvai, amarelece e perde sentido para os que não tenham sido protagonistas daquele momento amoroso. Sob as espécies do pão e do vinho encontra-se o próprio Cristo, realmente presente com seu Corpo, seu Sangue, sua Alma e sua Divindade. (1)


"Como compreendemos agora o clamor incessante dos cristãos, em todos os tempos, diante da Hóstia santa! Canta, ó língua, o mistério do Corpo glorioso e do Sangue precioso que o Rei de todos os povos, nascido de Mãe fecunda, derramou para resgate do mundo. É preciso adorar devotamente este Deus escondido. Ele é o mesmo Jesus Cristo que nasceu de Maria Virgem; o mesmo que padeceu e foi imolado na Cruz; o mesmo de cujo peito trespassado jorraram água e sangue."(2)


Este é o sagrado banquete em que se recebe o próprio Cristo, se renova a memória da sua Paixão e, por meio dEle, a alma chega a um convívio íntimo com o seu Deus e possui um penhor da glória futura. Assim resumiu a liturgia da Igreja, em breves estrofes, os capítulos culminantes da história da caridade ardente que o Senhor nos dispensa (3)


(1,2,3 - S.José Maria Escrivá - "E Cristo que Passa - Eucaristia Mistério de Fé e de Amor)

A Sexta-feira santa: Paixão e Morte do Senhor
É o Exaltado na cruz que tudo o atrai a si, quando os homens voltam a ele o olhar."

"A tarde de Sexta-feira Santa apresenta o drama imenso da morte de Cristo no Calvário. A cruz erguida sobre o mundo segue de pé como sinal de salvação e de esperança. Com a Paixão de Jesus segundo o Evangelho de João comtemplamos o mistério do Crucificado, com o coração do discípulo Amado, da Mãe, do soldado que lhe traspassou o lado.


"São João, teólogo e cronista da paixão nos leva a comtemplar o mistério da cruz de Cristo como uma solene liturgia. Tudo é digno, solene, simbólico em sua narração: cada palavra, cada gesto. A densidade de seu Evangelho agora se faz mais eloqüente. E os títulos de Jesus compõem uma formosa Cristologia. Jesus é Rei. O diz o título da cruz, e o patíbulo é o trono onde ele reina. É a uma só vez, sacerdote e templo, com a túnica sem costura com que os soldados tiram a sorte. É novo Adão junto à sua Mãe, nova Eva, Filho de Maria e Esposo da Igreja. É o sedento de Deus, o executor do testamento da Escritura. O Doador do Espírito. É o Cordeiro imaculado e imolado, o que não lhe romperam os ossos. É o Exaltado na cruz que tudo o atrai a si, quando os homens voltam a ele o olhar."



"A Mãe estava ali, junto à Cruz. Não chegou de repente no Gólgota, desde que o discípulo amado a recordou em Caná, sem ter seguido passo a passo, com seu coração de Mãe no caminho de Jesus. E agora está ali como mãe e discípula que seguiu em tudo a sorte de seu Filho, sinal de contradição como Ele, totalmente ao seu lado. Mas solene e majestosa como uma Mãe, a mãe de todos, a nova Eva, a mãe dos filhos dispersos que ela reúne junto à cruz de seu Filho."


"A maternidade de Maria tem o mesmo alcance da redenção de Jesus. Maria comtempla e vive o mistério com a majestade de uma Esposa, ainda que com a imensa dor de uma Mãe. São João a glorifica com a lembrança dessa maternidade. Último testamento de Jesus. Última dádiva. Segurança de uma presença materna em nossa vida, na de todos. Porque Maria é fiel à palavra: Eis aí o teu filho."


"O soldado que traspassou o lado de Cristo no lado do coração, não se deu conta que cumpria uma profecia, e  que realizava um último, estupendo gesto litúrgico. Do coração de Cristo brota sangue e água. O sangue da redenção, a água da salvação. O sangue é sinal daquele maior amor, a vida entregue por nós, a água é sinal do Espírito, a própria vida de Jesus que agora, como em uma nova criação derrama sobre nós."


"Na Sexta Feira Santa não se celebra a missa em todo o mundo. O altar é iluminado sem mantel, sem cruz, sem velas nem adornos. Recordamos a morte de Jesus. Os ministros se prostram no chão frente ao altar no começo da cerimônia. São a imagem da humanidade rebaixada e oprimida, e ao mesmo tempo penitente que implora perdão por seus pecados."


Sábado Santo  - Vigília Pascal -

sábado, 16 de abril de 2011

Semana Santa 2011 - No Flos Carmeli - Domingo de Ramos

"A liturgia do Domingo de Ramos põe na boca dos cristãos este cântico: Levantai, portas, os vossos dintéis; levantai-vos, portas antigas, para que entre o Rei da glória. Quem permanecer recluído na cidadela do seu egoísmo não descerá ao campo de batalha. Mas, se levantar as portas da fortaleza e permitir que entre o Rei da paz, sairá com Ele a combater contra toda essa miséria que embaça os olhos e insensibiliza a consciência.


Levantai as portas antigas. Esta exigência de combate não é nova no cristianismo. É a verdade perene. Sem luta, não se consegue a vitória; sem vitória, não se alcança a paz. Sem paz, a alegria humana é apenas uma alegria aparente, falsa, estéril, que não se traduz em ajuda aos homens, em obras de caridade e de justiça, de perdão e de misericórdia, em serviço de Deus.


Hoje em dia, dentro e fora da Igreja, em cima e em baixo, dá a impressão de que muitos renunciaram à luta - a essa guerra pessoal contra as claudicações próprias -, para se entregarem de armas e bagagem a servidões que envilecem a alma. Esse perigo estará sempre à espreita de todos os cristãos.


Por isso, é preciso pedir insistentemente à Santíssima Trindade que tenha compaixão de todos. Ao falar destas coisas, estremeço ante o pensamento da justiça de Deus. Recorro à sua misericórdia, à sua compaixão, para que não olhe para os nossos pecados, mas para os méritos de Cristo e de sua Santa Mãe, que é também nossa Mãe, para os do Patriarca São José, que lhe serviu de Pai, para os dos Santos.


O cristão pode viver com a segurança de que, se tiver desejos de lutar, Deus o pegará pela mão direita, como se lê na Missa da festa de hoje. Foi Jesus - que entra em Jerusalém montado num pobre jumentinho, o Rei da Paz -, foi Jesus quem o disse: O reino dos céus se alcança à força e são os violentos que o arrebatam. Essa força não se traduz em violência contra os outros: é fortaleza para combater as fraquezas e misérias próprias, valentia para não mascarar as infidelidades pessoais, audácia para confessar a fé, mesmo quando o ambiente é adverso.


Hoje, como ontem, do cristão espera-se heroísmo. Heroísmo em grandes contendas, se for preciso. Heroísmo - e será o normal - nas pequenas pendências de cada dia. Quando se luta continuamente, com Amor e deste modo que parece insignificante, o Senhor está sempre ao lado de seus filhos, como pastor amoroso: Eu mesmo apascentarei as minhas ovelhas e as farei repousar. Procurarei a ovelha perdida, reconduzirei a desgarrada, vendarei a que estava ferida, restabelecerei as enfermas... Viverão com segurança na sua terra. Quando eu tiver quebrado as cadeias do seu jugo e as houver libertado das mãos dos seus tiranos, saberão que eu sou o Senhor."

Os filhos dos hebreus estendiam suas vestimentas no caminho e clamavam dizendo:
“Hosana ao filho de David, bendito o que vem em nome do Senhor”.

Pueri Hebræorum vestimenta prosternebant in via, et clamabant dicentes:
“Hosanna filio David: benedictus qui venit in nomine Domini”.


fonte : www.escrivaworks.org.br
São José Maria Escrivá - " É Cristo que passa" 

domingo, 10 de abril de 2011

Meditação para a Quaresma- O Sacrifício do Calvário e a Santa Missa



Pontos para Reflexão




– O sacrifício de Jesus Cristo no Calvário, Ofereceu-se a si mesmo por todos os homens. A entrega pessoal.

– A Santa Missa, renovação do sacrifício da Cruz.

– Valor infinito da Santa Missa. A nossa participação no Sacrifício. A Santa Missa, centro da vida da Igreja e de cada cristão.


I. A Epístola  da Santa Missa relata-nos como Moisés intercede diante de Javé para que não castigue a infidelidade do seu povo. Aduz argumentos comovedores: o bom nome do Senhor entre os gentios, a fidelidade à Aliança feita com Abraão e seus descendentes... Apesar das dificuldades e desvios do Povo eleito, o Senhor perdoa uma vez mais. Mais ainda, o amor de Deus pelo seu povo e, por meio dele, por todo o género humano alcançará a manifestação suprema: De tal modo amou Deus o mundo que lhe entregou o seu Filho único, para que todo aquele que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna (1).


Em todo o sacrifício verdadeiro, existem quatro elementos essenciais, e todos eles se encontram presentes no Sacrifício da Cruz: sacerdote, vítima, oferecimento interior e manifestação externa do sacrifício. A manifestação externa deve ser expressão da atitude interior. Jesus, ao morrer na Cruz, manifesta exteriormente – através das suas palavras e actos – a sua amorosa entrega interior. "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito (3) : a missão que me confiaste está concluída, cumpri a tua vontade."A entrega plena de Cristo por nós, que culmina no Calvário, constitui o apelo mais premente para que correspondamos ao seu grande amor por cada um de nós. Na Cruz, Jesus consumou a entrega plena à vontade do Pai e o amor por todos os homens, por cada um: Ele me amou e se entregou por mim (2).


Ele é, então e agora, o Sacerdote e a Vítima: Tendo, pois, um sumo sacerdote, grande, que penetrou nos céus, Jesus, o filho de Deus, conservemos firme a nossa fé. Porque não temos nele um pontífice incapaz de compadecer-se das nossas enfermidades; antes pelo contrário, ele passou pelas mesmas provações que nós, fora o pecado (4). O Sacrifício da Cruz é único. Sacerdote e Vítima são uma só e a mesma pessoa divina: o Filho de Deus encarnado. Jesus não foi oferecido ao Pai por Pilatos ou Caifás, ou pela multidão reunida em torno do Calvário. Foi Ele que se entregou a si mesmo, em perfeita identificação com a vontade do Pai.


Nós, que queremos imitar Jesus, que só desejamos que a nossa vida seja reflexo da sua, devemos perguntar-nos na nossa oração de hoje se sabemos unir-nos ao oferecimento de Jesus ao Pai, aceitando a vontade de Deus em cada momento, nas alegrias e nas contrariedades, nas coisas que nos ocupam diariamente, nos momentos mais difíceis, como podem ser o fracasso, a dor ou a doença, e nos momentos fáceis, em que sentimos a alma cheia de felicidade.

“Minha Mãe e Senhora, ensina-me a pronunciar um sim que, como o teu, se identifique com o clamor de Jesus perante seu Pai: Non mea voluntas... (Lc 22, 42): não se faça a minha vontade, mas a de Deus” (5).


O sacerdote que celebra a Missa é apenas o instrumento de Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote. Cristo oferece-se a si mesmo em cada uma das Missas, exatamente como o fez no Calvário, ainda que agora o faça através do sacerdote, que actua in persona Christi. Por isso “toda a Missa, ainda que celebrada privadamente por um sacerdote, não é acção privada, mas acção de Cristo e da Igreja. Esta, no sacrifício que oferece, aprende a oferecer-se a si mesma como sacrifício universal, e aplica à salvação do mundo inteiro a única e infinita eficácia redentora do Sacrifício da Cruz” (6).


A nossa oração de hoje é um bom momento para ver como assistimos e participamos da Santa Missa. “Estais ali com as mesmas disposições com que a Virgem Maria esteve no Calvário, já que se trata da presença do mesmo Deus e da consumação do mesmo sacrifício?” (7) Amor, identificação plena com a vontade de Deus, oferecimento de si mesmo, ânsia de corredimir.


III. SENDO ESSENCIALMENTE IDÊNTICO ao Sacrifício da Cruz, o Sacrifício da Missa tem um valor infinito. Em cada Missa, oferece-se a Deus Pai uma adoração, uma ação de graças e uma reparação infinitas, independentemente das disposições concretas dos que assistem e do celebrante, porque o Ofertante principal e a Vítima que se oferece são o próprio Cristo. Portanto, não existe um modo mais perfeito de adorar a Deus que o oferecimento da Missa.


Também não existe um modo mais perfeito de dar graças a Deus por tudo o que Ele é e pelas suas contínuas misericórdias para connosco: nada na terra pode ser mais grato a Deus que o Sacrifício do altar. E, ao mesmo tempo, de cada vez que se celebra a Santa Missa, dada a infinita dignidade do Sacerdote e da Vítima, repara-se por todos os pecados do mundo: a Missa é a única perfeita e adequada reparação, e a ela devemos unir os nossos actos de desagravo; ela é realmente “o coração e o centro do mundo cristão”(8). Neste Santo Sacrifício, “está gravado o que há de mais profundo na vida de cada um dos homens: a vida do pai, da mãe, da criança, do ancião, do jovem e da jovem adolescente, do professor e do estudante, do homem culto e do homem simples, da religiosa e do sacerdote. De todos, sem excepção. É assim que a vida do homem se insere, mediante a Eucaristia, no mistério do Deus vivo” (9).


Os frutos de cada Missa são infinitos, mas, em nós, estão condicionados pelas nossas disposições pessoais. É por isso que a nossa Mãe a Igreja nos convida a participar de uma forma consciente, activa e piedosa10 nesse ato que é o mais sublime que acontece em cada dia. De modo especial, temos de procurar estar atentos e recolhidos no momento da Consagração; nesses instantes, devemos procurar penetrar na alma d’Aquele que é ao mesmo tempo Sacerdote e Vítima, na sua amorosa oblação a Deus Pai, como sucedeu no Calvário.


Este Sacrifício será então o ponto central da nossa vida diária, como o é de toda a liturgia e da vida da Igreja. A nossa união com Cristo no momento da Consagração será tanto mais plena quanto maior for a nossa identificação com a vontade de Deus, ao longo das nossas jornadas. Em união com o Filho, não só oferecemos ao Pai a Santa Missa como nos oferecemos a nós mesmos por Ele, com Ele e n’Ele. Este ato de união deve ser tão profundo e verdadeiro que influa decisivamente no nosso trabalho, nas nossas relações com os outros, nas nossas alegrias e fracassos, em tudo.


Contamos com muitas ajudas para viver bem a Santa Missa. Entre outras, a dos anjos, que “sempre estão ali presentes em grande número para honrar este santo mistério. Unindo-nos a eles e animados da mesma intenção, receberemos necessariamente muitas influências favoráveis dessa companhia. Os coros da Igreja triunfante unem-se e juntam-se a Nosso Senhor, neste ato divino, para cativarem, n’Ele, com Ele e por Ele o coração de Deus Pai, e para tornarem eternamente nossa a sua misericórdia”11. Recorramos a eles para evitar as distracções e esforcemo-nos por cuidar com mais amor desse tempo único em que participamos do Sacrifício da Cruz.


(1) Jo 3, 16; (2) Gal 2, 20; (3) Lc 23, 46; (4) Hebr 4, 14-15; (5) São Josemaría Escrivá, Via Sacra, IVª est., n. 1; (6) Paulo VI, Enc. Mysterium Fidei, 3-IX-1965, n. 4; (7) Cura d’Ars, Sermão sobre o pecado; (8) João Paulo II, Homilia no Seminário de Venegono, 21-V-1983; (9) idem, Homilia no encerramento do XX Congresso Eucarístico Nac. da Itália, 22-V-1983; (10) cfr. Conc. Vat. II, Const.Sacrossanctum Concilium, 48 e 11; (11) São Francisco de Sales, Introdução à vida devota.


Fonte SPE DEUS (Autor : Francisco Fernández Carvajal)


quarta-feira, 6 de abril de 2011

Reflexão para a Quaresma - Jesus foi conduzido ao deserto, para ser tentado pelo diabo...


Sermão de Santo Antônio de Pádua
EXÓRDIO - O DESERTO DE ENGADI

1. "Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo", etc. (Mt 4, 1).

Lemos no primeiro livro dos Reis que Davi demorou-se no deserto de Engadi (cf. 1Re 24, 1-2). Davi quer dizer "de mão forte" e indica Jesus Cristo, que, com as mãos pregadas na cruz, destruiu as potências dos ares (diabólicas). Ó maravilhoso poder: vencer o próprio inimigo com as mãos presas! Cristo demorou-se no deserto de Engadi, nome que se interpreta como "olho da tentação".


Observa que o olho da tentação é tríplice. O primeiro é o da gula, do qual se lê no Gênesis: "E a mulher viu que [o fruto] da árvore era bom para comer, belo aos olhos e de aspecto agradável; tomou do seu fruto, comeu dele e deu-o ao seu marido" (Gn 3, 6). O segundo é o da soberba e da vanglória, do qual Jó, falando do diabo, diz: "Olha tudo o que é alto: ele é o rei de todos os filhos da soberba" (Jó 41, 25). O terceiro é o da avareza, do qual fala o profeta Zacarias: "Este é o seu olho em toda a terra" (Zc 5, 6). Cristo, então, permaneceu no deserto de Engadi por quarenta dias e quarenta noites; durante eles, sofreu do diabo as tentações da gula, da vanglória e da avareza.


2. É dito, por isso, no evangelho de hoje: "Jesus foi conduzido ao deserto". Observa que os desertos são três, e em cada um desses foi conduzido Jesus: o primeiro é o seio da Virgem, o segundo é aquele do evangelho de hoje, o terceiro é o patíbulo da cruz. Ao primeiro, foi conduzido só pela misericórdia, ao segundo, para dar-nos o exemplo, ao terceiro, para obedecer o Pai.


Do primeiro diz Isaías: "Mandai, Senhor, o cordeiro dominador da terra, da pedra do deserto ató o monte da filha de Sião" (Is 16, 1). Ó Senhor, Pai, mandai o cordeiro, não o leão, o dominador, não o destruidor, da pedra do deserto, isto é, da bem-aventurada Virgem que é chamada "pedra do deserto": "pedra", pelo firme propósito da virgindade, pelo qual respondeu ao anjo: "Como pode acontecer isso, pois não conheço homem?" (Lc 1, 34), vale dizer: fiz o firme propósito de não conhecê-lo; "do deserto", porque não arável [lat. inarabilis]: permaneceu, de fato, intacta, virgem antes do parto, no parto e depois do parto. Mandai-o ao monte da filha de Sião, isto é, à santa igreja, que é filha da celeste Jerusalém.


Do segundo deserto diz Mateus: "Jesus foi conduzido ao deserto, para ser tentado pelo diabo", etc.


Do terceiro fala João Batista: "Eu sou a voz daquele que clama no deserto" (Jo 1, 23). João Batista é dito "voz" porque, como a voz precede a palavra, assim ele precedeu o Filho de Deus. Eu, disse, dou a voz de Cristo, que clama no deserto, isto é, sobre o patíbulo da cruz: "Pai, nas vossas mãos eu entrego o meu espírito" (Lc 23, 46). Nesse deserto tudo foi cheio de espinhos e ele foi privado de toda forma de humano socorro.


A TRÍPLICE TENTAÇÃO DE ADÃO E DE JESUS CRISTO

3. "Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto". Frequentemente se pergunta por quem Jesus foi conduzido ao deserto. Lucas o diz claramente: "Jesus, cheio do Espírito Santo, retirou-se do Jordão e foi conduzido pelo Espírito ao deserto" (Lc 4, 1). Foi conduzido por aquele mesmo Espírito do qual estava cheio, e do qual ele mesmo diz, pela boca de Isaías: "O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me consagrou com a unção" (Is 61, 1). Por aquele Espírito, pelo qual foi "ungido" (consagrado) mais que os seus companheiros (cf. Hb 1, 9), foi conduzido ao deserto, para ser tentado pelo diabo.


Como o Filho de Deus, o nosso Zorobabel, nome que se interpreta como "mestre da Babilônia", viera reconstruir o mundo arruinado pelo pecado, e, como médico, para curar os doentes, foi necessário que ele curasse os maus com os remédios opostos: como na arte médica as coisas quentes se curam com o frio, e as coisas frias com o calor.


A ruína e a fragilidade do gênero humano foi o pecado de Adão, constituído de três paixões: a gula, a vanglória, a avareza. Diz, de fato, o verso: "A gula, a vanglória e a ganância venceram o velho Adão" (autor desconhecido). Esses três pecados os achas escritos no Gênesis: "Disse a serpente à mulher: No dia em que comerdes deste fruto, abrir-se-ão os vossos olhos", eis a gula; "sereis como deuses", eis a vanglória; "conhecereis o bem e o mal", eis a avareza (Gn 3, 4-5). Esses foram as três lanças com as quais foi assassinado Adão junto com os seus filhos [com a sua descendência].


Lemos no segundo livro dos Reis: "Joab tomou na mão três lanças e as meteu no coração de Absalão" (2Re 18, 14). Joab quer dizer "inimigo" e justamente indica o diabo, que é o inimigo do gênero humano. Ele, com a mão da falsa promessa, "tomou três lanças", isto é, a gula, a vanglória e a avareza, "e as meteu no coração", no qual está a fonte do calor e da vida do homem - "dele, diz Salomão, procede a vida" (Pr 4, 23) -, para apagar o calor do amor divino e tirar completamente a vida; "no coração de Absalão", nome que quer dizer "paz do pai". E esse foi Adão, que foi posto num lugar de paz e de delícias a fim de que, obedecendo o Pai, conservasse eternamente a sua paz. Mas, já que não quis obedecer o Pai, perdeu a paz e, no seu coração, o diabo meteu as três lanças e o privou completamente da vida.


4. O Filho de Deus veio, portanto, no tempo favorável e, obedecendo a Deus Pai, reintegrou aquilo que estava perdido, curou os vícios com os remédios opostos. Adão foi posto no paraíso no qual, imerso nas delícias, caiu. Jesus, pelo contrário, foi conduzido ao deserto, no qual, persistindo no jejum, derrotou o diabo.


Observai como concordam entre si, no Gênesis e em Mateus, as três tentações: "Disse a serpente: No dia em que comerdes dele"; "e, aproximando-se, o tentador lhe disse: Se és o Filho de Deus, dize que estas pedras se tornem pães" (Mt 4, 3): eis a tentação da gula. Da mesma forma: "Sereis como deuses"; "então o diabo levou-o à cidade santa, e o pôs sobre o pináculo do templo" (Mt 4, 5), eis a vanglória. E enfim: "Conhecereis o bem e o mal"; "novamente, o diabo levou-o para sobre um monte altíssimo, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a sua glória, e lhe disse: Tudo isto eu te darei, se, prostrando-te, me adorares" (Mt 4, 8-9). O diabo, quanto é pérfido, tanto perfidamente fala: essa é a tentação da avareza.


Mas a Sabedoria, por sempre agir sabiamente, superou as três tentações do diabo com as três sentenças do Deuteronômio.


Jesus, quando o diabo o tentou pela gula, respondeu: "O homem não vive somente de pão" (Mt 4, 4; cf. Dt 8, 3), como se dissesse: Como o homem exterior vive de pão material, assim o homem interior vive do pão celeste, que é a palavra de Deus. A Palavra de Deus é o Filho, que é a Sabedoria que procede da boca do Altíssimo (cf. Eclo 24, 5). A sabedoria é chamada, assim, de sabor. Assim o pão da alma é o sabor da sabedoria, com o qual assabora os dons do Senhor e prova quão suave é o próprio Senhor (cf. Sl 33, 9). Desse pão é dito no livro da Sabedoria: "Preparaste-lhes um pão do céu, que contém toda delícia e todo suave sabor" (Sb 16, 20). E isso pretende quando diz: "Mas de toda palavra que sai da boca de Deus" (Mt 4, 4; cf. Dt 8, 3). "De toda palavra", porque a palavra de Deus e a sabedoria têm todo sabor suave, que torna insípido todo prazer da gula. E, como Adão teve nojo desse pão, cedeu à tentação da gula. Justamente, então, é dito: Não só de pão, etc.



Da mesma forma, quando o diabo o tentou pela vanglória, Jesus respondeu: "Não tentarás o Senhor, teu Deus" (Mt 4, 7; cf. Dt 6, 16). Jesus Cristo é Senhor pela criação, é Deus pela eternidade. E esse Jesus o diabo tentou, quando exortou a atirar-se abaixo, do pináculo do templo, o próprio criador do templo, e prometeu a ajuda dos anjos ao Deus de todas as potências celestes. "Não tentarás, então, o Senhor, teu Deus!". Também Adão tentou o Senhor Deus, quando não observou o mandamento do Senhor e Deus, mas prestou fé com leviandade à falsa promessa: "Sereis como deuses". Que vanglória, crer poder tornar-se deuses! Ó miserável! Em vão te enalteces acima de ti mesmo, e, por isso, ainda mais miseravelmente cais abaixo de ti. Não tentes, então, o Senhor, teu Deus.



Enfim, quando o diabo o tentou pela avareza, Jesus respondeu: "Adorarás o Senhor, teu Deus, e só a Ele servirás" (Mt 4, 10; cf. Dt 6, 13; 10, 20). Todos aqueles que amam o dinheiro ou a glória do mundo, ajoelham-se diante do diabo e o adoram.


Nós, pelo contrário, por quem o Senhor veio ao seio da Virgem e sofreu o patíbulo da cruz, instruídos pelo seu exemplo, caminhamos no deserto da penitência e, com a sua ajuda, reprimimos a concupiscência da gula, o vento da vanglória e o fogo da avareza.


Adoramos também nós aquele que os próprios arcanjos adoram, servimos aquele que os anjos servem, aquele que é bendito, glorioso, louvável e excelso pelos séculos eternos. E todo o criado diga: Amém!

Pedidos de Oração