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sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Um Natal Feliz e Alegre

 
Dom Fernando Arêas Rifan*


Em companhia de Maria e José e incentivados por São Paulo: “Alegrai-vos sempre no Senhor” (Fl 4,4), vamos celebrar nesta quinta-feira o Santo Natal, feliz e alegre, como foi o primeiro Natal. Nasceu Jesus, o Messias! Deus se fez homem! E os anjos anunciaram aos pastores essa felicidade. A reaparição da estrela misteriosa fez renascer a alegria e a felicidade no coração dos Magos que vieram do Oriente (Mt 2, 10).

Segundo a filosofia (Cícero e Boécio), felicidade é o estado constituído pelo acúmulo de todos os bens com a ausência de todos os males. Então, como poderemos chamar feliz um Natal onde houve desprezo, rejeição – Jesus nasceu numa estrebaria por falta de lugar para Ele nas casas e nas hospedarias -, lágrimas, gritos, morte, luto – Herodes, perseguindo Jesus, mandou matar as crianças de Belém – fuga, desterro, pobreza, sacrifícios? Realmente, felicidade perfeita, na definição filosófica, só se encontrará no Céu, na Jerusalém celeste, onde Deus “enxugará toda a lágrima dos seus olhos e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque tudo isto passou” (Ap 21,4).

É a grande lição do Natal: é possível ser feliz na dor, no desprezo, no luto, aqui na terra. Aqui, a felicidade consiste em ter Jesus, em estar com Jesus, em amar Jesus de todo o coração, com a esperança de tê-lo perfeitamente um dia no Céu. Talvez tenha sido essa a felicidade que Assis Valente, autor de “Anoiteceu”, não conhecia quando a pediu ao Papai Noel. Talvez por isso tenha se matado, pois ele e ela, como ele imaginava, não vieram.

Não se vai à Igreja para parar de sofrer, já que o sofrimento é inseparável da vida humana, mas para aprender a sofrer. O cristão é otimista e feliz, por causa da esperança, mesmo que sofra. Por isso, o primeiro Natal foi cheio de felicidade. A pobre estrebaria de Belém era o Céu. Faltava tudo e não faltava nada. Ali estava a felicidade e a alegria: Jesus.

“A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria” (Papa Francisco, Evangelii gaudium, 1). O presépio de Belém é o princípio da pregação de Jesus, o resumo do seu Evangelho. Daquele pequeno púlpito, silenciosamente, ele nos ensina o desprezo da vanglória desse mundo, o valor da pobreza e do desprendimento, o nada das riquezas, a necessidade da humildade, o apreço das almas simples, a paciência, a mansidão, a caridade para com o próximo, a harmonia na convivência humana, o perdão das ofensas, a grandeza de coração, enfim, as virtudes cristãs que fariam o mundo muito melhor, se as praticasse.

É por isso que o Natal cristão é festa de paz e harmonia, de confraternização em família, de troca de presentes entre amigos, de gratidão e de perdão. Pois é a festa daquele que, sendo Deus, tornou-se nosso irmão aqui na terra, ensinando-nos o que é a felicidade.

É assim que desejo aos meus caros leitores um verdadeiro ALEGRE E FELIZ NATAL!


*Bispo da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney
http://domfernandorifan.blogspot.com.br/


terça-feira, 16 de dezembro de 2014

14 de dezembro - São João da Cruz - Doutor e Místico do Carmelo




São João da Cruz é um emblema deste tipo de homem

Vivido entre 1542 e 1591 na Espanha, sua vida é marcada, por um lado, pela dor infligida-lhe pela dura realidade externa, e por outro pela alegria da descoberta crescente de uma vasta e luminosa realidade interior.

Órfão de pai aos 3 anos, João de Yepes – seu nome civil – prova o esforço da mãe que procura corações benevolentes a garantir-lhe a sobrevivência. Na adolescência pode trabalhar e estudar.

Aos 21 anos faz-se religioso carmelita, mas sofre a angústia de não poder viver ali como queria, e sonha com a austeridade e o silêncio monástico dos cartuxos.

No ano em que se ordena sacerdote, em 1567, encontra-se com Santa Teresa, que o conquista para a sua obra de reforma entre os frades. No ano seguinte, em 1568, torna-se o primeiro carmelita descalço, assume o novo nome de João da Cruz e vive momentos de indescritível felicidade, num casebre perdido da zona rural de Ávila. A partir daqui empenha-se, até o fim da vida, em diversas tarefas entre os carmelitas descalços que vêem-se em ligeira expansão. Sua missão somente é interrompida pela perseguição dos padres da Ordem Carmelitana, que o escolhem como vítima do conflito gerado pelo crescimento dos descalços. Durante 9 meses, entre 1577 e 1578, é encarcerado no convento da cidade de Toledo. No meio de um sofrimento físico e moral somente imaginável por quem passou pela dura realidade da prisão, brotam do seu coração as mais belas poesias místicas já escritas, que revelam a experiência de um Deus que se faz prisioneiro do nosso amor.

Terminado o tempo da prisão, retoma suas atividades, até o ano de 1591, quando, em meio a uma surda perseguição dos seus próprios superiores, alegra-se por ver aproximar-se o almejado momento de poder ver rompida a tênue tela que o separava do seu divino amado.

São João da Cruz deixou-nos escritos de maravilhosa profundidade de vida espiritual. Seus escritos revelam a densidade de vida que ele mesmo viveu, e constitui doutrina insuperável, pela originalidade das considerações, a respeito do itinerário da vida cristã, desde seus primeiros passos às mais altas realizações nesta vida. A forma que envolve o conteúdo dos ensinamentos do místico doutor, é de igual modo, plena de beleza poética, pois somente a poesia é capaz de expressar sentimentos e realidades indizíveis.


Além das cartas, de pensamentos e ditos e outros escritos menores, São João da Cruz deixou-nos quatro grandes escritos que interrelacionam-se e onde desenvolve o dinamismo que toda pessoa humana é chamada a percorrer em sua relação com Deus. Tais obras são: Subida do Monte Carmelo, Noite escura, Cântico espiritual e Chama viva de Amor. As duas primeiras obras acentuam a purificação como passagem e caminho que concretiza a união, purificação que envolve atitudes que têm por protagonismo ora a pessoa que responde à graça, ora Deus mesmo que, aos passos da pessoa, toma o processo em suas mãos. As outras obras, ainda que tocando a realidade da purificação, centram sua atenção na vivacidade do amor que tudo pervade e nas consequências positivas da união com Deus, ideal último para o qual todos nós fomos criados.

O centro de tudo é sem dúvida o amor: força propulsora do processo, objeto de purificação que consiste em concentrar toda a sua força para Deus, fim e ideal do caminho. A união com Deus é união de amor com aquele que é amor. Ordenado para Deus, nosso amor recupera sua veemência, sua característica de força e movimento, afinal o amor é forte como a morte e sua medida é ser sem medida. Tão infinito como Deus é o amor, e, do mesmo modo como ele nos amou, à loucura, quando o amamos, somos levados a cometer por ele loucuras de amor. “Com ânsias de amores inflamada”, diz um trecho de uma sua poesia, é assim que a alma caminha em seu caminho com Deus e para Deus. Amando assim, este santo carmelita tornou-se, sem dúvida, um louco, louco de paixão por Deus, e nenhum de nós que dele se aproxima e por ele deixa-se guiar, pode deixar de almejar a mesma loucura, de um mesmo amor.

Sua Vida e Obras


Primeira Missa

A primeira Missa por ele celebrada foi no Convento de Sant’ana em Medina Del Campo, em setembro de 1567, na oitava da natividade de Nossa Senhora. Estavam presentes sua mãe e seu irmão mais velho, Francisco, com sua família. Um santo temor o havia levado a recusar a dignidade sacerdotal; somente a obediência às ordens de seus superiores o fez vencer os escrúpulos. A convicção de sua indignidade se fez sentir vivamente ao iniciar a celebração. Despertou-lhe o desejo ardente de ser inteiramente puro, para com as mãos imaculadas tocar o Santíssimo. Do íntimo de seu coração, formula o pedido para que Deus o preserve de ofendê-lo mortalmente.(p.25).

Visões

O crucificado lhe aparecia frequentemente em visões…em sua doutrina, João declara que as visões, locuções e revelações são de pouca importância para a vida mística. Neste particular, ele sempre chamou a atenção para o perigo da ilusão, se alguém atribuir muita importância a esses fenômenos. Tal fato consistiria num obstáculo ao caminho da união…O fato de se ter manifestado sobre as duas visões evidencia sua importância especial. Ambas foram seguidas de verdadeira fúria de perseguições e sofrimentos…A primeira aparição deu-se em Ávila, no Convento da Encarnação, para onde o chamou santa Teresa, a fim de assumir o múnus de confessor das monjas. Imerso, um dia, na contemplação dos sofrimentos na cruz, apresentou-se-lhe visivelmente o Cristo crucificado, coberto de chagas e inundado de sangue. Tão viva e real foi a aparição que o Santo voltando a si, conseguiu fixá-la num desenho a bico-de-pena.

A segunda aparição ocorreu em Segóvia e data do fim de sua vida…”Tínhamos no Convento um crucifixo. Um dia, ao deter-me diante dele, pareceu-me ser mais indicado colocá-lo na Igreja, porque desejava que fosse venerado não só pelos frades, mas também pelos traunsentes. Pus-me a realizar a minha idéia. Colocando-o na igreja, encontrei-me um dia diante dele em oração, quando ele me disse: ‘Frei João, podes fazer-me um pedido em troca do serviço que tens prestado! Respondi: ‘Senhor o que te peço são sofrimentos que teria de suportar por ti, e que eu seja desprezado e desdenhado por ti.’…E foi o que aconteceu. João não foi nomeado para cargo algum – mandaram-no para a solidão de La Peñuela. Foi aí que soube das pressões sofridas pelas carmelitas:foram submetidas a interrogatórios, a fim de se colherem acusações contra João da Cruz. Procuravam-se motivos para expulsá-lo da Ordem. Não muito depois, em virtude da última doença, João foi obrigado a deixar La Peñuela, onde não havia recursos médicos. Assim, chega a última estação de sua via-crucis – a cidade de Ubeda. Coberto de feridas e fraco, chega a esse lugar onde encontra o prior, Pe. Francisco Crisóstomo, seu feroz adversário, que se incumbiu de maltratá-lo de todos os modos. Assim, João atingiu o cume do Gólgota, satisfeitos seus desejos de tratos aviltantes.(p.28).


A defesa da fé o faz sofrer

Uma tarde, por volta do ‘Angelus’, João saiu, em Ávila, da igreja conventual onde acabara de ouvir confissões e dirigiu-se pelo caminho costumeiro à casinha que ocupava seu companheiro, Pe. Germano. Foi então que se arremeçou contra ele um homem, espancando-o de tal forma que o deixou jogado no chão – foi a vingança de um amante a quem arrebatara sua presa. Ao narrar o ocorrido, João acrescentou que nunca sentira na vida tão doce consolação: fora tratado como o próprio Cristo e experimentara a doçura da cruz.(p.29).

Torturas e sofrimentos

Na noite de 4 de dezembro de 1577, alguns carmelitas calçados, acompanhados de seus simpatizantes, entraram na residência dos dois confessores do Convento e os levaram presos. Deste momento em diante João esteve desaparecido. Santa Teresa soube que fora o prior Maldonado quem o raptara. Mas o seu paradeiro só foi conhecido nove meses tarde, após sua volta à liberdade. De olhos vendados, João foi conduzido, através dos subúrbios da cidade, ao Convento de Nossa Senhora de Toledo…Submeteram-no a interrogatórios e, como se recusasse a renunciar à Reforma, trataram-no como rebelde. Sua prisão era um cubículo de cerca de 3m de comprimento por 2m de largura, ‘no qual, embora fosse de estatura baixa, mal podia ficar em pé”, como nos relata Teresa. Na cela não havia janela ou orifício por onde entrasse o ar, exceto uma pequena fresta bem no alto da parede…de início era levado ao refeitório todas as tardes; posteriormente, três vezes por semana, enfim, somente às sexta-feiras…No refeitório, era-lhe também aplicada a disciplina. Ajoelhado, descoberto..recebia açoite de todos. Como suportasse tudo com paciência e amor, chamaram-no de covarde…Seu hábito ficava ensopado de sangue pelas flagelações, mas ele tinha de tornar a vesti-lo e usá-lo durante os nove meses de prisão. (p.31).

Noite escura

Quando afirma que nunca experimentara tanta luz e consolo sobrenaturais quanto no cárcere, temos de reconhecer que ele já havia ultrapassado as graças ligadas aos sofrimentos. Os versos da noite escura e do Cântico espiritual, compostos na prisão, testemunham a sua beatificante união com Deus. A cruz e a noite são o caminho para a luz celeste – eis a jubilosa mensagem da cruz. (p.33).

Sabedoria da Cruz

Manter sempre vivo o desejo de imitar a Cristo, vivendo conforme sua vida….renunciar a qualquer prazer que se ofereça aos sentidos e até afastá-lo de si, caso não contribua para a honra e glória de Deus.

“não queirais desejar nada além da cruz, sem qualquer consolação, porque isso é em verdade perfeito”.(p.223). São João da Cruz

“Quanto maiores e mais pesados os fardos, tanto melhor recompensa para quem os carrega”. (p.228).São João da Cruz

Um dia aconteceu que, em presença do Santo, uma irmã se pronunciou em termos desfavoráveis a um leigo que era hostil ao convento. Recebeu, então, o seguinte conselho: Nesse caso, vós e as demais deveis acolhê-lo com maior afabilidade; deste modo vos tornareis discípulas de Cristo”. E acrescentou: “É mais fácil suportar uma pequena amargura nessa ocasião, e encomendar esse homem a Deus que dobrar a amargura cedendo à vontade em tais sentimentos contra o próximo.(p.228-229).

Exemplo de Vida 

O amor aos doentes, os membros sofredores de Jesus Cristo, acompanhou-o a vida inteira…limpava-lhes os vasos e não permitia que por falta de recursos fossem removidos aos hospitais. “Repreendia com severidade quaisquer negligências nesse ponto”.(p.231).

João tudo fazia com admirável serenidade e gravidade, escreve padre Eliseu dos Mártires. Seu trato e conversa eram agradáveis, muito espirituais e proveitosos para os que o ouviam e com ele se abriam. Nisto foi ele tão singular e profícuo, que os que se aproximavam dele, homens ou mulheres, voltavam espiritualizados, devotos e afeiçoados à virtude….era perseverante na oração…(p.239)

João era coerente consigo, e mesmo quando superior, foi pela bondade delicada que conquistou os corações. Quando necessário repreendia, mas só com mansidão e amor paterno.(p.245).

No dia 22 de setembro de 1591, monta o burrico que um amigo pôs à sua disposição e dá início a última viagem de sua vida. É realmente uma jornada de sofrimentos. Sua perna enferma dói como se estivesse para ser amputada. E esta era a razão de seu sofrimento:começou por inchar-se a perna e depois se abriram sucessivamente cinco feridas purulentas, que lhe davam motivo para esta oração: “Muito vos agradeço, meu Senhor Jesus Cristo, por me concederdes numa só perna as cinco chagas que trazíeis nos pés, nas mãos e no peito. ..e não se queixava de modo algum entre as maiores dores.(p.250)

No dia 13 de setembro, perguntou qual o dia da semana: ao saber que Ra uma sexta-feira, ao correr do dia indagou por várias vezes a hora, pois esperava rezar Matinas no Céu. Nesse último dia de sua vida manteve-se ainda mais quieto e recolhido que antes.(p.254)

…E de repente, durante a recitação dos salmos, viu brilhar uma esfera luminosa entre o teto e a extremidade do leito…e no momento em que o Santo expirou, viu subitamente o leito circundado de clarão luminoso.(p.256).

Nem mesmo para com seus inimigos emprega palavras ásperas: o que eles lhe fazem, considera obra de Deus.(p.242).

Sabedoria da Fé

Durante o capítulo realizado em Lisboa, muitas pessoas, mesmo padres austeros, iam visitar uma religiosa cujos estigmas atraíam grande atenção e guardavam como relíquias pedacinhos de pano embebido no sangue dos estigmas. João não deu atenção ao caso nem visitou a religiosa. Mais tarde, em Granada, ao lhe perguntarem durante o recreio se havia visto a estigmatizada, respondeu: “Não a vi, nem desejo vê-la, pois muito me pesaria se minha Fé precisasse contemplar tais coisas para crescer um pouco…”(p.241).


Diretores espirituais falhos

Quantas vezes Deus está unindo a si a alma contemplativa por meio da união delicadíssima do conhecimento amoroso, sereno, pacífico, solitário…e chega um diretor espiritual que não sabe mais que martelar e malhar as faculdades, como ferreiro e…dirá: “Ande, deixe-se desses repousos que são ócio e perda de tempo…” Falta a essa espécie de diretores o necessário conhecimento; “apesar disso, metem suas mãos grosseiras em coisa que não entendem e não a deixam para quem entenda.(p.245).

Procure sempre inclinar-se

Não ao mais fácil, e sim ao mais difícil;

Não ao mais saboroso, e sim ao mais insípido;

Não ao mais gostoso, mas ao que dá menos gosto;

Não ao repousante, mas ao trabalhoso;

Não ao que consola, mas ao desconsolo;

Não ao mais, e sim ao menos;

Não ao mais alto e precioso, mas ao mais baixo e desprezível;

Não ao querer alguma coisa, mas ao nada querer;

Não ao andar buscando o melhor das coisas temporais, mas o pior e desejar entrar em toda..pobreza de tudo quanto há no mundo, por amor de Cristo.

(p.48-49).



Frei César Cardoso de Resende, ocd

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

08 de Dezembro - Solenidade da Imaculada Conceição

Homilia do Padre Françoá Costa  



Conta-se que o Beato escocês João Duns Scoto (1266-1308), estando diante duma imagem de Nossa senhora, rezou da seguinte maneira: dignare me laudare te, Virgo sacrata: Virgem Santa, fazei com que eu fale bem de vós! Em seguida, o franciscano fez as seguintes perguntas:

- A Deus lhe convinha que a sua Mãe nascesse sem a mancha do pecado original?

Sim. A Deus lhe convinha que a sua Mãe nascesse sem nenhuma mancha, pois é mais honroso para ele.

- Deus podia fazer que a sua Mãe nascesse sem o pecado original?

Sim. Deus pode tudo e, portanto, podia fazer com que a sua Mãe fosse imaculada, sem mancha.

- Aquilo que é conveniente a Deus, ele o faz ou não?

Se Deus vê que uma coisa é conveniente, que é melhor, ele a realiza.

- Logo – exclamou Scoto –, já que para Deus era melhor que a sua Mãe fosse imaculada e podia fazer que assim o fosse, ele – de fato – a fez imaculada. Decuit, potuit, fecit! Convinha e Deus podia, Deus o fez!

Logicamente, esse não foi o primeiro raciocínio em torno à verdade da Imaculada Conceição. Muitos estudiosos da ciência teológica haviam pensado nessa verdade de fé e, não obstante, encontravam dificuldades à hora de afirmá-la, basicamente duas: a universalidade do pecado depois de Adão e a universalidade da redenção efetuada por Cristo. Se todos nascem com a mancha do pecado original, como retirar a Mãe de Jesus do meio do comum dos mortais? Essa era a primeira objeção. Ademais, Cristo salvou a todos. Afirmado o anterior, será que a defesa da imaculada conceição não vai em contra dessa universalidade da redenção de Cristo que atinge a todos? De fato, esses argumentos fizeram com que alguns teólogos – como Santo Anselmo, São Bernardo, Santo Alberto Magno, São Tomás de Aquino e São Boaventura – negassem que Maria fosse imaculada desde a sua conceição. Logicamente, naquele tempo não havia o dogma da imaculada conceição e, portanto, nenhum deles pode ser acusado de heresia.

Ao contrário desses grandes teólogos, Eadmero (+ 1124), monge beneditino e discípulo de Santo Anselmo, mais atento à fé do Povo de Deus que se sentia atingido em sua piedade quando se afirmava que Maria teve o pecado original, ofereceu uma boa base argumentativa para defender a imaculada conceição de Nossa Senhora. A sua maneira de pensar ajudou especialmente a resolver a primeira dificuldade, aquela que se referia à universalidade do pecado. Eadmero se apoiou, por um lado na analise que pode ser feita sobre a geração do ser humano e, por outro, na onipotência de Deus. Esse autor diz que em toda concepção há que considerar duas coisas, os pais que geram (dimensão ativa) e o filho que é gerado (dimensão passiva). Na concepção ativa (geração) há continuidade e, nesse sentido, transmissão do pecado; mas na concepção passiva (a criatura que é gerada) há uma descontinuidade porque começa um novo ser e, nesse sentido, pode dar-se a ruptura com o pecado na humanidade. Estabelecida a possibilidade, o monge beneditino inglês apoiou-se na onipotência de Deus para que aquilo que é possível venha a ser real. Eadmero deixou escrito em seu “Tratado sobre a conceição de Santa Maria”: Potuit plane et voluit; si igitur voluit, fecit”: como Deus pode e quis (romper a cadeia do pecado e fazer imaculada a Virgem Maria), fez aquilo que quis. Talvez essas palavras latinas – potuit, voluit, fectit: pôde, quis, fez – já se encontravam na piedade popular que, ao parecer, cantava da seguinte maneira:

Quis e não pôde, então não é Deus;
Pôde e não quis, então não é filho;
Digam, portanto, que pôde e quis.

Com Guilherme de Ware (+ 1300), a teologia franciscana sobre a imaculada conceição de Maria começa a andar a passos largos. Esse frei inglês foi professor em Oxford; filósofo e teólogo, ao parecer foi mestre de João Duns Scoto em Oxford. Guilherme oferece o argumento para resolver a segunda dificuldade, aquela que se referia à “incompatibilidade” entre a universalidade da redenção e a imaculada conceição de Maria. Para esse autor, Maria não teve o pecado original porque ela foi redimida por Cristo antecipadamente, de maneira preventiva: ela foi preservada, pelos méritos de Cristo, de contrair o pecado original.


O “cantor do Verbo encarnado e defensor da Imaculada Conceição”, o Beato Duns Scoto – como o definiu João Paulo II – soube unir todas essas tendências a favor da imaculada conceição de Nossa Senhora com grande sucesso. Bento XVI, na audiência do dia 07 de julho deste ano, quando falou sobre o beato Duns Escoto, explicava alguns aspectos ligados a esse dogma. A descrição do Papa é muito interessante: “Na época de Duns Escoto a maior parte dos teólogos fazia uma objeção, que parecia insuperável, à doutrina segundo a qual Maria Santíssima foi preservada do pecado original desde o primeiro momento da sua concepção: de fato, a universalidade da Redenção realizada por Cristo, à primeira vista, podia parecer comprometida por semelhante afirmação, como se Maria não tivesse precisado de Cristo e da sua redenção. Por isso os teólogos opunham-se a estes textos. Então, Duns Escoto, para fazer compreender esta preservação do pecado original, desenvolveu um tema que depois seria adoptado também pelo beato Papa Pio IX em 1854, quando definiu solenemente o dogma da Imaculada Conceição de Maria. E este argumento é o da “Redenção preventiva”, segundo a qual a Imaculada Conceição representa a obra-prima da Redenção realizada por Cristo, porque precisamente o poder do seu amor e da sua mediação obteve que a Mãe fosse preservada do pecado original. Por conseguinte Maria é totalmente remida por Cristo, mas já antes da concepção. Os Franciscanos, seus irmãos de hábito, aceitaram e difundiram com entusiasmo esta doutrina, e outros teólogos – muitas vezes com juramento solene – comprometeram-se a difundi-la e a aperfeiçoá-la”.


Depois de um longo caminho de piedade mariana imaculista e de reflexão teológica, Pio IX, no dia 08 de dezembro de 1854, rodeado por 92 bispos, 54 arcebispos, 43 cardeais e de muitíssimas outras pessoas definiu como dogma de fé a Imaculada Conceição da Virgem e Mãe de Deus, Maria Santíssima: “declaramos, proclamamos e definimos que a doutrina que sustenta que a beatíssima Virgem Maria foi preservada imune de toda mancha da culpa original no primeiro instante da sua conceição por singular graça e privilégio de Deus onipotente, em atenção aos méritos de Cristo Jesus Salvador do gênero humano, está revelada por Deus e deve ser, portanto, firme e constantemente acreditada por todos os fiéis” (Bula Ineffabilis Deus).


Logicamente, a base bíblica dessa verdade de fé católica não pode ser mais que implícita. A inimizade entre Maria e o demônio (cfr. Gn 3,15), a plenitude de graça que há em Maria (cfr. Lc 1,28) e a benção que recai em Nossa Senhora (cfr. Lc 1,42) são realidades que, interpretadas na Tradição da Igreja, nos oferecem uma base sólida para contemplar, expor, viver e defender essa verdade da nossa fé.


Ao pensar na Imaculada Conceição, eu também gosto de pensar na pureza de vida que o Senhor pede que tenhamos e que pode resumir-se naquela bem-aventurança que diz “bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus”. Quando falamos de pureza de coração não nos referimos somente à castidade, mas àquela disposição interior que nos deixa livres para acolher o olhar penetrante de Deus nas nossas vidas e para que também nós, com uma felicidade antecipada, possamos ver – agora na fé e depois na visão – o Pai e o Filho e o Espírito Santo. A pureza do coração nos faz sensíveis às coisas do alto; um coração sujo, ao contrário, não percebe as coisas de Deus.




Bendita seja a tua pureza, 
Seja bendita eternamente.
Pois todo um Deus se recreia
Em tão graciosa beleza.
A ti, celestial princesa,Virgem sagrada, Maria,Eu ofereço neste diaA vida, a alma e o coração.Olha-me com compaixão.Não me deixes, ó minha Mãe.
(canto mariano tradicional)
Pe. Françoá Costa

Pedidos de Oração