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sábado, 17 de outubro de 2009

O Santo Rosário de Nossa Senhora



UMA BREVE HISTÓRIA DO ROSÁRIO DA

VIRGEM MARIA


1- O Nascimento do Rosário


O Rosário é uma forma de oração muito antiga, usada pelos cristãos dos primeiros tempos. Desde os monges do oriente, até os beneditinos e agostinianos, era costume contar as preces com pedrinhas. Aliás, foi um beneditino, o venerável Santo Beda, a sugerir que elas fossem enfileiradas em um cordão, para facilitar o transporte e manuseio.O Rosário é uma oração cuja origem se perde nos tempos. A tradição diz que foi revelado a S. Domingos de Gusmão (1170-1221), numa aparição d e Nossa Senhora, quando ele se preparava para enfrentar a heresia albigense.


A prática da oração do Rosário, como conhecemos hoje, nasceu no início do século XVII. E se tornou de grande valia na solução de um problema relevante das novas Ordens de frades mendicantes, franciscanos e dominicanos, onde a maioria era de analfabetos. Nessa época, o Papa Inocêncio III decidiu colocar um fim à heresia albigense, instalada no sul da França. O pontífice enviou para lá dois sacerdotes, Diego de Aceber e Domingos de Gusmão. Como o primeiro teve morte súbita, a missão ficou por conta do segundo. Mas a questão foi resolvida com muita eficiência, pois ele acabou contando com uma forte aliada: a Virgem Maria.



Diz a tradição que em 1207, o então fundador da Ordem dominicana estava na cidade francesa de Santa Maria de Prouille inaugurando o primeiro convento feminino de sua congregação. Na capela desse convento, Nossa Senhora apareceu à Domingos de Gusmão e lhe ensinou a oração do Rosário, para ser difundida como arma da fé contra todos os inimigos do cristianismo e também, para a salvação dos fieis. A partir daí a Ordem Dominicana se tornou a guardiã do Rosário, cujos missionários iniciaram a propagação do culto em todo o mundo.


Assim nasceu, nos dominicanos, o Rosário, o “saltério de Nossa Senhora”, a “Bíblia dos pobres”, com 150 Avé-Marias. Um pouco mais tarde, em 1422, pelas mesmas razões, os franciscanos c riaram a Coroa Seráfica, uma oração muito parecida, mas com estrutura ligeiramente diferente (tem sete mistérios, em honra das sete alegrias da Virgem, os mistérios Gozosos, trocando a Apresentação no Templo pela Adoração dos Magos e os dois últimos Gloriosos, acrescentando mais duas Avé-Marias em honra dos 72 anos da vida de Nossa Senhora na Terra).



Mas é preciso dizer que, nessa altura, não havia ainda a Ave Maria. Já desde o século IV se usava a saudação do arcanjo S. Gabriel (Lc 1, 28) como forma de oração, mas só no século VII ela aparece na liturgia da festa da Anunciação como antífona do Ofertório. No século XII, precisamente com o Rosário, juntam-se as duas saudações a Maria, a de S. Gabriel e a de S. Isabel (Lc 1, 42), tornando-se uma forma habitual de rezar. Em 1262 o Papa Urbano IV (papa de 1261-1264) acrescenta-lhes a palavra “Jesus” no fim, criando assim a primeira parte da nossa Ave Maria.



Só no século XV se acrescenta a segunda parte de súplica, tirada de uma antífona medieval. Esta fórmula, que é a actual, torna-se oficial com o Papa Pio V (1566-1572). Grande reformador no espírito do concílio de Trento (1545-1563), S. Pio V é o responsável pela publicação do Catecismo, Missal e Breviário Romanos surgidos do Concílio, que renovam toda a vida a Igreja. Foi precisamente no Breviário Romano, em 1568, que aparece pela primeira vez na oração oficial da Igreja a Avé-Maria.


2- A Batalha de Lepanto e a festa de Nossa Senhora do Rosário


O contributo de São Pio V, um antigo dominicano, para a história do Rosário não se fica por aqui. O grande reformador criou também o último grande momento da antiga Cristandade, a unidade dos reinos cristãos à volta do Papa. Os turcos otomanos, depois do cerco e queda de Constantinopla em 1453, o fim oficial da Idade Média, e das conquistas de Suleiman, o Magnífico (1494-1566, sultão desde 1520), estavam às portas da Europa. Dividida nas terríveis guerras entre católicos e protestantes, a velha Europa não estava em condições de resistir. O perigo era enorme.


Além de apelar às nações católicas para defender a Cristandade, o Papa estabeleceu que o Santo Rosário fosse rezado por todos os cristãos, pedindo a ajuda da Mãe de Deus, nessa hora decisiva. Em resposta, houve um intenso movimento de oração por toda a Europa. Finalmente, a 7 de Outubro de 1571 a frota ocidental, comandada por D. João de Áustria (1545-1578), teve uma retumbante vitória na batalha de Lepanto, ao largo da Grécia. Conta-se que nesse mesmo dia, a meio de uma reunião com os cardeais, o Papa levantou-se, abriu a janela e disse “Interrompamos o nosso trabalho; a nossa grande tarefa neste momento é a de agradecer a Deus pela vitória que ele acabou de dar ao exército cristão”. A ameaça fora vencida. Este foi o último grande feito da Cristandade. Mas o Papa sabia bem quem tinha ganho a batalha. Para louvar a Vitoriosa, ele instituiu a festa litúrgica de acção de graças a Nossa Senhora das Vitórias no primeiro domingo de Outubro. Hoje ainda se celebra essa festa, com o nome de Nossa Senhora do Rosário, no memorável dia de 7 de Outubro.


3 - O rosário até João Paulo II


A partir de então, o Rosário aparece em múltiplos momentos da vida da Igreja. Já no fresco do Juízo Final, pintado por Miguel Ângelo (1475-1564) na Capela Sistina do Vaticano de 1536 a 1541, estão representadas duas almas a serem puxada para o céu por um Terço. São as almas de um africano e de um asiático, mostrando a universalidade missionária da oração.


A 12 de Outubro de 1717, foi retirada do rio Paraíba uma imagem de Nossa Senhora com um Terço ao pescoço por três humildes pescadores, Domingos Martins Garcia, João Alves e Felipe Pedroso, em Guaratinguetá, São Paulo. Essa estátua, de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, foi declarada em 1929 Rainha e Padroeira do Brasil.


A Imaculada Conceição rezou o Terço com Bernadette Soubirous (1844-1879) nas aparições de Lourdes em 1858. O Papa Leão XIII, “Papa do Rosário”, como lhe chama a recente Carta Apostólica do Papa (n.º 8) dedicou mais de 20 documentos só ao estudo desta oração, incluindo 11 encíclicas.


Também o Beato Bártolo Longo (1841-1926) é um os grandes divulgadores do Rosário, como o refere a recente Carta Apostólica (n.º 8, 15, 16, 36, 43). Antigo ateu, espírita e sacerdote satânico, depois da sua conversão viu na intercessão de Nossa Senhora a sua única hipótese de salvação. Sendo advogado, em 1872 deslocou-se à região de Pompeia por motivos profissionais e ficou chocado com a pobreza, ignorância, superstição e imoralidade dos habitantes dos pântanos. Entregou-se a eles para o resto da vida. Arranjou um quadro da Senhora do Rosário, que fez vários milagres e criou em 1873 a festa anual do Rosário, com música, corridas, fogo de artifício. Construiu uma igreja para essa imagem, que se veio a tornar no Santuário de Nossa Senhora do Rosário de Pompeia. Fundou uma congregação de freiras dominicanas para educar os órfãos da cidade, escreveu livros sobre o Rosário e divulgou a devoção dos «Quinze Sábados» de meditação dos mistérios.


Outro grande momento da divulgação do Terço é, sem dúvida, Fátima. “Rezar o Terço todos os dias” é a única coisa que a Senhora referiu em todas as suas seis aparições. A frase repete-se sucessivamente, quase como uma ladainha, manifestando bem a sua urgência e importância. Na carta do Dr. Carlos de Azevedo Mendes, num dos primeiros documentos escritos sobre Fátima, afirma-se Como te disse examinei ou antes interroguei os três em separado. Todos dizem o mesmo sem a mais pequena alteração. A base principal que de tudo, o que me dizem, deduzi é «que a aparição quer que se espalhe a devoção do Terço»


A história do Rosário não pode terminar sem referir um momento decisivo desta evolução. A escolha do Papa João Paulo II de celebrar as suas bodas de prata pontifícias com o Rosário, acrescentando-lhe os cinco mistérios luminosos, é um marco importante na devoção. Mas a ligação do Papa a esta oração não é de hoje, como ele mesmo diz na Carta: “Vinte e quatro anos atrás, no dia 29 de Outubro de 1978, apenas duas semanas depois da minha eleição para a Sé de Pedro, quase numa confidência, assim me exprimia: «O Rosário é a minha oração predileta. Oração maravilhosa! Maravilhosa na simplicidade e na profundidade.»”(n.º 2)


O Papa João Paulo II decidiu celebrar as suas bodas de prata papais com uma oração, o Rosário da Virgem Maria. Dado que é apenas a quarta vez na História que a Igreja celebra os 25 anos de um pontificado, (depois de S. Pedro, que foi Papa do ano 32 a 67, do beato Pio IX, Papa de 16 de Junho de 1846 a 7 de Fevereiro de 1878 e do seu sucessor Leão XIII, Papa de 20 de Fevereiro de 1878 a 20 de Julho de 1903), esta decisão tem grande relevo histórico e profético.


Agradecimentos pela colaboração do Irmão Leondro - Ir. Claudio de La Colombiere - OTC


domingo, 4 de outubro de 2009

Mês do Santo Rosário

A devoção do Santo Rosário


No ano 1365 fez-se uma combinação dos quatro saltérios, dividindo as 150 Ave Marias em 15 dezenas e colocando um Pai nosso no início de cada uma delas. Em 1500 ficou estabelecido, para cada dezena a meditação de um episódio da vida de Jesus ou Maria, e assim surgiu o Rosário de quinze mistérios.


A palavra Rosário significa 'Coroa de Rosas'. A Virgem Maria revelou a muitas pessoas que cada vez que rezam uma Ave Maria lhe é entregue uma rosa e por cada Rosário completo lhe é entregue uma coroa de rosas. A rosa é a rainha das flores, sendo assim o Rosário a rosa de todas as devoções e, portanto, a mais importante.
O Santo Rosário é considerado a oração perfeita porque junto com ele está a majestosa história de nossa salvação. Com o rosário, meditamos os mistérios de gozo, de dor e de glória de Jesus e Maria. É uma oração simples, humilde como Maria. É uma oração que podemos fazer com ela, a Mãe de Deus. Com o Ave Maria a convidamos a rezar por nós. A Virgem sempre nos dá o que pedimos. Ela une sua oração à nossa. Portanto, esta é mais poderosa, porque Maria recebe o que ela pede, Jesus nunca diz não ao que sua mãe lhe pede. Em cada uma de suas aparições, nos convida a rezar o Rosário como uma arma poderosa contra o maligno, para nos trazer a verdadeira paz.


O Rosário é composto de dois elementos: oração mental e oração verbal.


No Santo Rosário a oração mental é a meditação sobre os principais mistérios ou episódios da vida, morte e glória de Jesus Cristo e de sua Santíssima Mãe. A oração verbal consiste em recitar quinze dezenas (Rosário completo) ou cinco dezenas do Ave Maria, cada dezena iniciada por um Pai Nosso, enquanto meditamos sobre os mistério do Rosário. A Santa Igreja recebeu o Rosário em sua forma atual em 1214 de uma forma milagrosa: quando a Virgem apareceu a Santo Domingo e o entregou como uma arma poderosa para a conversão dos hereges e outros pecadores daquele tempo. Desde então sua devoção se propagou rapidamente em todo o mundo com incríveis e milagrosos resultados.
fonte: ACI Digital
“Quem persevera na meditação, mesmo que o demônio a tente de muitas maneiras, tenho certeza que Senhor a levará ao porto da salvação...Quem não pára no caminho da meditação, chegará ainda que tarde”.Também dizia que: “O demônio se esforça muito em afastar a pessoa da meditação porque ele sabe que as pessoas perseverantes na oração estão perdidas para ele”.
Santa Teresa de Ávila

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

03 de Outubro - Festa de Santa Teresinha do Menino Jesus

A Alegria de Ser Pequena


"... Se não vos tornardes como as crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus" (Mt 18,3b), confidencia-nos Jesus no evangelho proclamado todos os anos na festa de Santa Teresinha. Não tivesse brotado do coração misericordioso d 'Aquele que veio ao mundo não para condená-lo, mas para salvá-lo, esta frase pesar-nos-ia como uma ameaça, porque condiciona a salvação: quem conservar suas manias de grandeza, "de modo algum" terá acesso ao Reino. Espelhar-se no exemplo das crianças é a senha que abre as portas do Reino.



Para o discípulo tornar-se criança, não precisa fazer muita coisa. Ele precisa realizar um único exercício: reconhecer sua própria pequenez. Este reconhecimento da própria fraqueza e indigência trata-se de um dom a ser cultivado. Serão impedidos de ingressar no Reino os que não se espelharem no modelo das crianças rechaçadas da sociedade do tempo de Jesus.



Este texto de Mateus é a porta de entrada do edifício espiritual de Santa Teresinha. Ele nos permite atingir o núcleo da "Pequena Via", a "pequena doutrina" que a Santa de Lisieux criou para si, não a partir de indagações filosóficas, mas baseada na observação de si mesma, de suas limitações pessoais, aliadas à decisão de ser santa: o desejo de permanecer criança aos olhos do Pai.



Todas as nuances do legado espiritual da Santa de Lisieux devem ser interpretadas pela chave da "pequenez". Uma leitura correta de seus escritos só procede quando compreendemos a sofreguidão com que procura, acima de tudo, ser criança, o que não se avalia somente por sua escrita infantil, pontuada de diminutivos. Teresa queria ser criança no sentido evangélico. Não desejava retroagir ou estacionar no estágio infantil da psicologia evolutiva. Buscava ser uma "tabula rasa" diante de Deus, na dependência exclusiva d'Ele, característica talvez ausente nas crianças de hoje, que, desde cedo, familiarizadas à tecnologia, e tendo acesso a todas às fontes de informação, parecem já nascerem sabendo tudo.



Ela anseia permanecer criança porque possui consciência de suas limitações e fraquezas, e também por sabedoria, que bem pode ser entendida como "esperteza". Sabe que, assumindo o estado de criança, só tem a ganhar aos olhos de Deus, além do que, para ser santa, sua maior aspiração, não lhe é oferecida outra alternativa.



Não poderia tripudiar com seu Amado Jesus. Não poderia enganar Seu esposo usando uma capa de grandeza que, efetivamente, não possuía. O que pode parecer um truque para escapar às duras penitências e sacrifícios transforma-se em autêntica vocação: "Jesus se apraz em me mostrar o único caminho que conduz a essa fornalha divina, esse caminho é o abandono da criancinha que dorme, sem medo, nos braços de seu Pai" (Cf MB.1r). Sem saída, rende-se aos encantos do Amado que apenas lhe solicita entrega confiante. A "Pequena Via" é uma calçada de amor na qual a criança encantada passeia.



A pequenez de Teresa torna-se ainda mais compreensível quando iluminada por outra palavra de Jesus: "Eu te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos" (Mt 12,16) diz o Senhor, levando-nos a crer que o Pai não partilhou a intimidade de seus segredos com todos. O Filho, em sua ação de graças, manifesta intensa alegria, aprovando e parabenizando o Pai por ter-se revelado inteiramente aos pequenos. Jesus demonstra seu contentamento porque algumas "coisas" foram depositadas com exclusividade no coração dos "pequeninos". Quem não se torna pequenino e não se transforma em criança não conhece os segredos do Reino, é o que podemos deduzir.


A Santa Doutora Teresinha do Menino Jesus foi uma "pequenina" a quem o Pai manifestou os segredos do Reino. Em cada página de seus escritos, especialmente no "Manuscrito B", ela proclama os segredos de Deus revelados à sua alma pequena: "Ah, se sábios, que tivessem passado suas vidas no estudo, viessem me interrogar, sem dúvida ficariam pasmos em ver uma criança de quatorze anos compreender os segredos da perfeição, segredos que toda a ciência não pode revelar" (MA 49r). Espanta-nos a precocidade de Teresa na compreensão das coisas de Deus. Por outro lado, não se pode deixar de admirar sua aceitação imediata daquilo que aparenta ser incompreensível: os caminhos misteriosos do Amor de Jesus que a deixa na "noite escura". Árido mistério no qual sua pequenez não consegue penetrar.



Seus textos transpiram humildade, submissão à vontade de Deus, uma formidável atração pelos últimos lugares e uma confiança absoluta no amor misericordioso do Pai. Trata-se de alguém que precisa levantar a cabeça para contemplar tudo que se encontra fora do alcance de sua mão. Na infância, para ver pela última vez o rosto de sua mãe estendida no caixão precisou erguer a cabeça "para ver a parte de cima e parecia-me muito grande... muito triste" (MA 13v). Este esforço irá acompanhá-la por toda a vida. Pequena, quer voar, atingir as alturas da Montanha do Amor.



Mesmo quando não lhe é concedida a graça de receber luzes esclarecedoras, terá a convicção de jamais ser abandonada pelo Pai. Angústias e sofrimentos não a impedirão de crer que, mesmo quando parece dormir, Jesus está atento à sua aridez espiritual. Tudo isto sem perder o bom humor e a alegria de viver. Alegria que, segundo o testemunho de Irmã Genoveva, era uma alegria infantil, heróica: "Minha santa Irmãzinha conservou até o fim de sua vida maneiras infantis e encantadoras que tornavam sua companhia muito agradável. Sua amável alegria parecia mesmo crescer com o sofrimento". (Conselhos e Lembranças, p. 145).
Teresa é uma criança contente, a quem satisfaz qualquer carinho do "Bom Deus". Em tudo ela desvela a ternura de Deus, nas coisas e episódios mais insignificantes. A consciência de ser "... essa criança, objeto do amor previdente de um Pai..." (MA39r) fá-la acreditar que Deus não leva em conta sua fragilidade pois "... as criancinhas agradam a seus pais igualmente, quer estejam dormindo, quer estejam acordadas" (MA 75v). Jamais tem medo de ser repreendida ou castigada. Usa, sempre, como trunfo, o fato de ser criança: "Minha desculpa é que sou uma criança, as crianças não refletem no peso de suas palavras (...) (MB 4r)



Ela dobra o poder, a fortaleza do Deus terrível fomentado pela espiritualidade de sua época. Suas armas infantis levam-na a seduzir a Suprema Majestade, assentada em seu trono, despertando n' Ele uma misericórdia e afetos que os "sábios" desconhecem porque não têm o atrevimento das crianças, não se jogam nos braços do mistério. Têm medo de errar, tremem diante da possibilidade do fracasso. Ela enfrenta as próprias fraquezas sem recear ser derrotada no seu intento de viver unicamente o amor. Nem o pecado mortal, que, segundo o Pe. Pichon, ela jamais cometeu, tirar-lhe-ia a confiança (Cf. CA 20.7.3).



Também por ser criança, pode pensar em fazer loucuras: "... sinto em mim outras vocações, a de Guerreiro, a de Sacerdote, a de Apóstolo, a de Doutor, a de Mártir... sinto na minha alma a coragem de um cruzado... Queria morrer num campo de batalha pela defesa da Igreja..." (MB 3f). Como viver todos estes chamados enclausurada no jardim carmelitano? Embora não desmereça a sublimidade de ser "Carmelita, esposa e mãe" (idem), confessa desejos sem temer zombarias: "Gostaria também de pregar o Evangelho nas cinco partes do mundo, até nas mais longínquas ilhas" (MB 3v). No Carmelo permitiu que crescesse seu sonho de martírio. Sua loucura vai mais além: não conseguiria satisfazer-se "com uma forma de martírio... Para satisfazer-me, preciso de todas". (Idem). Preocupa-se com as reações de Jesus a respeito dessas "loucuras", pois sabe que não "há alma menor, mais impotente" (Ibidem) que a sua.



A impotência diante de sonhos tão irrealizáveis conduzem-na à escuta da palavra de Deus, aos capítulos 12 e 13 da primeira epístola aos Coríntios. Aí descobre a "chave" de sua vocação: o Amor. A uma criança só resta amar: "... no Coração da Igreja, minha Mãe, serei o Amor... serei tudo, portanto..." (MB 4f). Mais difícil que ser Apóstolo, Sacerdote e Guerreiro é oferecer-se como "vítima" ao Amor. Para tanto a criança "impotente e fraca" é suficientemente audaciosa. A "alma imperfeita", a "Criança da Igreja" é muito pequena para realizar grandes obras. Os grandes pensam muito antes de se entregar a uma tarefa para a qual não se sentem preparados. As crianças são mais audaciosas: "Sou apenas uma criança impotente e fraca, mas é minha própria fraqueza que me dá a audácia para me oferecer como Vítima ao teu Amor" (MB 4f).



A pequena Teresa decifra os "segredos da perfeição" no "livro da vida" e não através de visões extraordinárias ou dos tratados teológicos e místicos: "Sem mostrar-se, sem se fazer ouvir, Jesus ensina-me em segredo, não é por meio dos livros, pois não entendo o que leio, às vezes, porém, uma palavra como esta que destaquei no final da oração..." (MB 1v). Elucubrações e conceitos filosóficos e teológicos não a interessam. Há coisas que ela reconhece humildemente fugir à sua compreensão. Mas, quando em atitude de oração, mesmo no silêncio e na aridez, basta-lhe uma palavra para lhe descortinar a Ciência do Amor: "A ciência do Amor, oh sim! Esta palavra soa doce ao ouvido da minha alma, só desejo essa ciência..." (Idem).



Teresa quer ser perfeita, e, para tanto, não encontra outro caminho além daquele que conduz ao perfeito abandono nos braços de Deus. Estará sendo sutilmente irônica quando afirma em uma longa carta dirigida ao Pe. Roulland que deixa " para as grandes almas, os grandes pensadores, os belos livros que não consigo entender, menos ainda praticar..." (CT 226)? Estaria repudiando os equívocos daqueles que buscam nos manuais de espiritualidade uma espécie de santidade acadêmica, caminho inverso àquele do evangelho? A santinha que muitos consideram ingênua estaria lançando farpas nos "doutores", gigantes da vida espiritual? Certamente essas linhas não foram escritas em tom acusatório.



Ela tem coisas mais importantes com as quais se preocupar. Encontra-se empenhada em alegrar-se "por ser pequena" (idem). Por isso sua vida será uma suave canção de amor a Deus, até o fim. Não desafinará quando o sofrimento atingir seu auge. Mesmo roucamente, a criancinha dirá ao final: "Meu Deus, amo-vos". Aquela que intercede por nós é muito pequena, mas sua alma reveste-se da fortaleza de um gigante. Quem resiste ao impulso de carregá-la ao colo, mesmo sabendo que é ela quem nos carrega até Jesus?



Autor : Pe. Antonio Damásio Rêgo Filho
fonte : Paróquia de Santa Teresinha de Belo Horizonte - MG

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