O Sagrado Coração de Jesus

Na antropologia bíblica dizemos: “Pensamos com o coração. Amamos com as entranhas”.
2. Na Bíblia o coração é sobretudo o sinal da interioridade, por isso se diz que um coração inteligente busca a ciência (Pr.15,14) e «o coração do sábio torna inteligente a sua boca» (Pr.16,23). Por isso o salmista pede a Deus que lhe ensine a contar os dias para alcançar a sabedoria do coração. A Bíblia fala-nos do homem a “pensar em seu coração”, como um pensar sobre qualquer coisa, ou também um “falar ao coração”, como sinónimo de desafio à reflexão. O coração, na Bíblia, é a sede da pessoa, o seu centro vital e pessoal, donde brotam os pensamentos, os sentimentos e as decisões. Por isso, se diz na Escritura:
«O coração do homem decide os seus caminhos» (Pr.16,9).
O coração humano, capaz do melhor e do pior, é expressão da determinação e entrega consciente da vontade e é uma graça ter um coração aberto ao bem e não obstinado em tomar decisões perversas. Chega-se mesmo a prometer «um coração novo» (Ez.11,19), capaz de amar a Deus, com todo o coração e sem reticências. Isso não quer dizer que a Bíblia desconheça o «coração» do ponto de vista afetivo,
“que estremece como estremecem as árvores do bosque pelo vento”
(Is.7,2), de modo que o dia das núpcias se traduz como «o dia da alegria do coração» (Ct.4,9). Ao contrário do que parece, a palavra «coração», na Bíblia, não alude apenas ao afeto e ao sentimento, mas sobretudo a esse centro pessoal de pensamento, de decisão e de vontade, que define a pessoa.
3. Neste sentido, Deus também tem «coração»! No Antigo Testamento, fala-se 26 vezes do coração de Deus, considerado como o órgão da sua vontade! Também o coração de Deus pensa e deseja como o da sua criatura, experimenta os mesmos sentimentos e paixões, como escutávamos no profeta Oseias. Além disso, há um trecho do AT em que o tema do coração de Deus, se encontra expresso de modo absolutamente claro: é no capítulo 11 do livro do profeta Oseias, onde os primeiros versículos descrevem a dimensão do amor com que o Senhor se dirigiu a Israel, na aurora da sua história: "Quando Israel ainda era menino, Eu o amei, e do Egipto chamei o meu filho" (v. 1). Na verdade, à incansável predileção divina, Israel responde com indiferença e até com ingratidão. "Quanto mais os chamava – o Senhor é obrigado a constatar – mais eles se afastavam de mim" (v. 2). Todavia, Ele nunca abandona Israel nas mãos dos inimigos, pois "o meu coração – observa o Criador – do universo comove-se dentro de mim, comove-se a minha compaixão" (v. 8).
4. O coração de Deus comove-se! Na solenidade do Sacratíssimo Coração de Jesus, a Igreja oferece à nossa contemplação este mistério, o mistério do coração de um Deus que se comove e derrama todo o seu amor sobre a humanidade. Um amor misterioso, que nos textos do Novo Testamento nos é revelado como paixão incomensurável pelo homem. Ele não se rende perante a ingratidão, e nem sequer diante da rejeição do povo que Ele escolheu para si; pelo contrário, com misericórdia infinita, envia ao mundo o seu Filho, o Unigénito, para que assuma sobre si o destino do amor aniquilado a fim de que, derrotando o poder do mal e da morte, possa restituir dignidade de filhos aos seres humanos, que o pecado tornou escravos. Tudo isto a caro preço: o Filho Unigénito do Pai imola-se na cruz:
"Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim" (cf. Jo 13, 1).
Símbolo de tal amor, que vai além da morte é o seu lado traspassado por uma lança. A este propósito, a testemunha ocular, o Apóstolo João, afirma: "Um dos soldados perfurou-lhe o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água" (cf. Jo 19, 34).
5. No Coração de Jesus está expresso o núcleo essencial do cristianismo, em Cristo foi-nos revelada e comunicada toda a novidade revolucionária do Evangelho: o Amor que nos salva e nos faz viver já na eternidade de Deus. O evangelista João escreve: "Deus amou de tal modo o mundo, que lhe deu o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça mas tenha a vida eterna" (Jo 3, 6). Então, o seu Coração divino chama o nosso coração; convida-nos a sair de nós mesmos, a abandonar as nossas seguranças humanas para confiar nele e, seguindo o seu exemplo, a fazer de nós mesmos um dom de amor sem reservas. Sim, o seu Coração está aberto por nós e aos nossos olhos; e deste modo está aberto o Coração do próprio Deus!
6. Queridos irmãos e irmãs: O mundo de hoje, com as suas lacerações sempre mais dolorosas e preocupantes, precisa do Deus, que é Amor, e anunciá-lo é tarefa da Igreja. A Igreja, para poder executar esta tarefa, deve permanecer indissoluvelmente abraçada a Cristo e não deixar-se nunca separar dele: necessita de Santos que morem “no coração de Jesus” e sejam testemunhas felizes do Amor Trinitário de Deus. E os Sacerdotes, para servirem a Igreja e o Mundo, precisam ser Santos!De facto, nós os sacerdotes não podemos santificar-nos sem trabalhar pela santificação dos nossos irmãos, e não podemos trabalhar pela santificação dos nossos irmãos sem que primeiro tenhamos trabalhado e ainda trabalhemos em nossa própria santificação. Para isso, vos pedimos: rezai pelos sacerdotes. Pois, como dizia o Santo Cura d’Ars: O sacerdócio é o amor do Coração de Jesus!
Nota: Estes 6 pontos de reflexão podem desenvolver-se nas meditações dos 5 mistérios e na conclusão do Rosário
Escrito por Pe. Amaro Gonçalo a 20 junho 2012.
http://www.abcdacatequese.com/
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